quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Os pecados da origem
24/12/2025

A história da conquista da Paraíba é escrita à base do Sumário das Armadas, relato seiscentista do jesuíta Simão Travassos, testemunha ocular da missão pacificadora do “Ouvidor-Geral do Estado do Brasil”, Martim Leitão.

O Sumário, que a maioria dos historiadores fica em dúvida se foi escrito pelo padre Simão ou por Jerônimo Machado, é uma notícia em tom épico, como costumavam ser todas as narrações da aventura portuguesa, tendo como herói maior e “braço forte” da conquista o tal Ouvidor.

Horácio de Almeida, o mais empolgante dos nossos historiadores, refere-se a ele, o Ouvidor, como homem “movido de grande fervor patriótico”, com liderança capaz de convocar às armas

“todos os homens válidos de Pernambuco, capitães e soldados”, e com moral bastante para “a todos impor a mesma disciplina.”

O jesuíta chama-o amiúde de herói – “este heroe que vai cantando seu heroico nome, es Martim Leitom”.

Todas as narrações da conquista seguem esse mesmo diapasão, desde Simão Travassos, passando por Maximiano Machado, Irineu Pinto, meu conterrâneo Manoel Tavares, Celso, Coriolano, até a soma de todos eles, com mais algum acréscimo, que é o brejeiro do Bruxaxá, velho Horácio, homem e escritor a quem a Paraíba ainda não rendeu a devida homenagem. Talvez por ser Almeida, marca açambarcada pelo vulto enorme de José Américo, renovador político, renovador cultural, renovador moral, sobrando menos para outros talentos e desempenhos da família.

No IV Centenário da Paraíba, integrando a comissão organizadora, fiquei frustrado pela moleza do governo Braga de não ter podido erigir, olhando para o rio, no Largo da Estação, um monumento gigante reunindo os três maiores do 5 de agosto: João Tavares, Piragibe e, em plano mais elevado, o Ouvidor Leitão. Índio autêntico, mistura de cariri com bultrim, sempre me deixei enganar por espelhinhos, fogueiras e fetiches.

Sou doido por monumento e não entendo como a mais simétrica e expressiva escultura da Paraíba, o monumento a João Pessoa, não seja cultivada e zelada à altura do seu significado e da arte de Humberto Cozo, o seu escultor.

E mais frustrado ainda fico agora, ao me defrontar com a Conquista da Paraíba, capítulo do português Joaquim Veríssimo Serrão, autor de ensaio que não comparece nas bibliografias dos nossos historiadores: Do Brasil Filipino ao Brasil de 1640.

Pois não é que, visto por esse português da Academia Portuguesa de História, trabalhando em cima das fontes, o nosso herói Leitão, sem deixar de ser o conquistador que foi, andou acobertando o PC Farias daqueles tempos? Tratava-se de um tal Miguel Gonçalves Vieira, provedor em Pernambuco, que na compra de escravos de Angola desviou das rendas imperiais vinte e tantos mil cruzados. Para se ter uma ideia desse valor, basta saber que Pernambuco, Bahia e Itamaracá juntos rendiam 30.000 cruzados.

Ao contrário do moderno PC, que só transacionou com trinta por cento do orçamento liberado, o Gonçalves Vieira afanou mais de sessenta por cento da renda real. O provedor-mor da fazenda de então, Martim Carvalho, denunciou-o à Corte, mas Martim Leitão, que era amigo de Vieira, não cumpriu a carta-precatória e mandou que ele se escafedesse para Bahia, onde teve homizio facilitado por amigos de Leitão.

Concluiu o português Serrão: “Era uma luta acesa entre Martim Leitão e Carvalho pelas vantagens que ambos procuravam obter na guerra da Paraíba”.

Até o jesuíta do Sumário, que não é outro, para Joaquim Veríssimo, senão o padre Travassos, é chamado ironicamente de “biógrafo caloroso do Ouvidor”.

Desgraçadamente, é o Brasil de todos os tempos.

canal whatsapp banner

Compartilhe:
sobre
Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.