Quando lembramos os nove anos da passagem de minha irmã para a eternidade seu olhar, seu sorriso, sua voz que apaziguava e suas mãos que afagavam, continuam na lembrança de seus irmãos e, de modo especial, de seus filhos. Onde andará Verônica? Ela foi se juntar a nossa mãe e ao nosso pai que, em tempos passados, também fizeram a sua páscoa.
Já perdi a convivência física com muitos familiares e amigos, mas três pessoas são caras suas ausências. Uma raiva surda me esmagou lentamente quando os perdi, em períodos diferentes, repartindo-me em pedaços, mas o tempo me recompôs. Essas ausências são superadas porque a consolação vem de Deus, e temos a certeza de que nossa vida na terra é temporária.
Neste 08 de outubro é a data em que nos despedimos de nossa irmã. No meu livro “Tapuio – do nascer ao entardecer” -, publicado por ocasião dos meus 65 anos de idade, faço memória da perde de três entes: meu pai, minha mãe e minha irmão. Agora, retirando pedaços do texto deste livro, reviso a saudade deles.
Assim escrevi:
Minha irmã morreu!
Demorei-me a acostumar com a ideia de sua ausência. Logo ela que acompanhei seu crescimento e vivemos momentos agradáveis como irmãos.
Ela se juntou aos outros seis irmãos que morreram no nascedouro, e agora juntos, esperam os demais que ficaram se preparando para a reunião celestial, no tempo oportuno. Recordamos nossa irmã na saudade do sos-sego que os mortos merecem.
A constelação das estrelas ganhou nova companhia. Já serenou a tempestade que me sufocava e estrangulava o espírito, agora envolto em paz.
Nós, seus irmãos e familiares, sentimos a perda da convivência diária com ela.
Como nossos pais e nossos irmãos mortos sem que tenham visto a paisagem do mundo onde aqui vivemos, o monstro horrível estendeu para fora a garra levando-nos nossa irmã. Refeitos da ausência, serenou a tem-pestade que sufocava o espírito.
Olhando-a depositada na câmara ardente do caixão, as lembranças de nossa infância desabaram como rocha no meu crânio, e exilado no meu passado tento reconstruir o futuro sem sua voz meiga, tão irmã e amiga. No caixão, o perfil do seu rosto não ficou alterado, parecia se despedir de nós com o sorriso.
A tarde virava com o sol aproximando-se da barra do horizonte, sa-cudindo sobre Arara uma nuvem de legítimo ouro e em todo o entorno da cidade os arbustos se inclinaram como que a despedir-se dela. Ou ela, no gesto destes arbustos, era quem se despedia de nós. Já perto da hora do Ângelus, ali, à luz do céu límpido, com ela sendo posta no túmulo da família, tinha-se a impressão da presença da suave vida bíblica do Éden. Uma flor sendo sepultada para se juntar aos demais familiares no espaço reservado aos justos.
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Acerca da despedida de meu pai, o registro rememora a primeira dor causadas pelas perdas:
Viveu seus últimos anos de vida sem deixar o lugar onde sempre viveu e devotava paixão.
Quando olhei o corpo de papai dentro do caixão na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Serraria, para as exéquias e despedidas dos amigos, muitos rostos familiares e outros que nem reconhecia ao redor do corpo inerte, percebi que meu pai era querido no lugar onde nasceu e viveu por toda a vida. Muitos nem sabiam quem tinha sido seu avô José Pedro da Costa, homem de mãos calejadas que possuía léguas de terras em Serraria, quando o lugar tinha poucas casas, era praticamente somente matas.
Quando fecho os olhos é a imagem deste homem sofrido, revelado nas raízes da família que construiu o passado de nossa terra, que me reveste de esperança.
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Sobre o moimento de despedida de minha mãe, escrevi:
Aquela noite do dia da agonia derradeira, quando contemplei seu ros-to sereno na cama do hospital, segurando meu braço, mamãe murmurou com os lábios trêmulos “um Deus te abençoe”, e fui abençoado com a meiguice do seu olhar. Um adeus e me abençoou.
Não tive coragem de me despedir, mas no meu coração pedia perdão se não fui um bom filho, se beijos não lhe ofereci. Chorei silencioso andando pelos corredores do hospital fúnebre. Novamente choro recordando nosso adeus num até mais tarde, para o reencontro na primavera celestial.
Nossos olhares nunca se separaram, a não ser no dia de sua despedida derradeira, naquela tarde longa e silenciosa, quando o sol se abaixou por trás de longínquas serras, quando a brisa morna da primavera se espalhou sobre nós, e a terra mãe a recebendo de volta para fazer brotar no Paraíso.