terça-feira, 31 de março de 2026
O rodízio da corrupção no Rio de Janeiro não é exceção, é método
31/03/2026

Há décadas, políticos condenados são sucedidos por outros que repetem o mesmo destino — não como previsão, mas como engrenagem do poder no estado

No Rio de Janeiro, o problema não é apenas quem governa, mas como o poder se organiza e se preserva. Não se trata de uma sequência de crises, mas de um modo de funcionamento que se estabilizou. A cada novo ciclo eleitoral, o que se vê não é renovação, mas reposição. A troca de nomes não altera o arranjo – apenas o mantém em circulação. Escândalos e prisões não interrompem o sistema; fazem parte do seu reajuste.

A Assembleia Legislativa não ocupa papel periférico nesse processo. Ao contrário! Ela atua como espaço de sustentação: blindagens, negociações e rearranjos garantem que o sistema atravesse seus próprios abalos sem se desfazer. O sistema de justiça também cumpre seu papel. Afinal, leniência e morosidade não são apenas falhas, mas partes da engrenagem. O tempo entre investigação e condenação abre o intervalo necessário para a recomposição do poder. Quando a punição chega, o sistema já seguiu adiante.

É nesse ponto que a milícia deixa de ser margem e passa compor a estrutura. Não se trata apenas de grupos criminosos que dominam territórios, mas de redes frequentemente formadas por agentes ou ex-agentes do Estado — policiais, militares, bombeiros e operadores da segurança pública — que transportam para a ilegalidade saberes, métodos e formas de controle que deveriam ser exclusivas do Estado. O que se estabelece não é apenas domínio armado, mas gestão cotidiana: cobrança por serviços, regulação de conflitos, definição de quem pode circular, trabalhar ou permanecer. Trata-se de uma forma de governo que não substitui o Estado, mas o prolonga por outros meios, operando nas zonas cinzentas nas quais legalidade e ilegalidade parecem indistintas.

É aqui que Foucault deixa de ser uma referência distante e se torna uma chave analítica. O poder não se reduz à lei ou à repressão direta; ele se exerce na administração minuciosa da vida, na organização dos espaços, na gestão dos corpos e das populações. Milícia, corrupção e política institucional não são esferas isoladas, mas dimensões que se articulam e se retroalimentam.

No Rio, essa lógica assume uma feição particular: a instabilidade não é eliminada, mas administrada. A gestão do medo é parte da engrenagem. O descontrole não é ausência de governo – mas parte do que se governa. Há uma racionalidade que não busca pacificar os conflitos, mas manter o nível de tensão necessário para que dispositivos legais e ilegais sigam operando. Por isso, hoje, com o vazio instalado no gabinete do governo, o que está em jogo não é a superação do desarranjo, mas a sua administração contínua.

Há muitos anos o Rio de Janeiro não vive uma real alternância de poder, como se vê no Executivo Federal. Nestas terras carnavalescas, banhadas pelas águas e sob a envergonhada presença do Redentor, o que se repete não é um desvio, mas uma forma de funcionamento. O maior incômodo talvez não seja o mecanismo em si – mas o fato de que ele já não precisa se esconder.

Todavia, “não há mal que sempre dure”. O exercício despudorado do poder, a certeza da impunidade e a convicção rasa de que “tá tudo dominado” abriu uma janela de oportunidades para novas práticas políticas, novos projetos de poder.  A renúncia de Cláudio Castro e a cassação de Rodrigo Bacellar põem na agenda a eleição direta para governador – ainda que para um curto mandato tampão. Rousseau dizia que o povo pode errar muitas vezes, mas não existe quem possa errar pelo povo. Se isso é verdade, a democracia brasileira volta a gritar: “Diretas Já!”

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Renata Medeiros — Mestre em ciência política, advogada;
Lier Pires Ferreira
— PhD em Direito (UERJ). Pesquisador do NuBRICS/UFF.