quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
O pau da Paraíba
31/12/2025

Com aqueles olhos de iluminado, Otávio Sitônio Pinto já havia chegado ao meu terraço com essa conversa.

– Onde você viu isto, homem?…

Ele não lembrou, não soube me dizer, mas aquilo ficou fermentando minha cerveja. Otávio, além de minerador de leituras, é superintuitivo. Vê o que os outros não vêem, como lá dizia o homem que não era das suas melhores simpatias.

Pois não foi ele, Otávio Sitônio, quem inventou essa história de que “aqui o sol chega primeiro?”. Beaurepaire Rohan, o maior observador que já perlustrara estas plagas, não havia notado essa particularidade do nosso avanço geográfico em demanda do levante.

Eu estava absorto em qualquer leitura, numa manhã antiga de A União, quando Otávio entra espavorido, vestes de motoqueiro e olhar de quem acabara de saltar do arco-íris.

O texto vinha à mão, pronto para ser servido numa peça promocional da Paraíba turística: “Paraíba, onde o sol chega primeiro”. O avanço continental do Cabo Branco apanhando o sol primeiro que qualquer outro extremo das Américas.

Morando no Cabo, José Américo não tinha notado isto. Se notara, não havia dito.

Chega Otávio, ares de Vespúcio, e me larga a descoberta no birô: “Repare se é isto!”

Agora a boutade é no meu terraço, não propriamente boutade, mas descoberta mesmo:

“Quem deu nome ao Brasil foi o pau de tinta da Paraíba”.

– Onde você viu isto?

– Não sei onde li ou vi, mas existe qualquer coisa nesse sentido.

Abro o Sumário das Armadas, a carta de Caminha da Paraíba, e lá reencontro a mina de Otávio. Vejamos o que diz o texto seiscentista sobre a conquista da terra:

“Das outras capitanias o pão não dá mais que duas tintas (…) Dizem que o pão desta capitania da Parahyba é a mercadoria mais de lei que de todas as outras, por não padecer corrupção de tempo nem de água”.

E noutro salto: “O pão desta capitania é o mais e melhor que se sabe; por ser a derradeira d’este estado, deu o nome a toda a província”.

Traduza-se: por ser a última a aparecer aos olhos e cobiça dos conquistadores e traficantes (do Rio Grande pra cima era só capoeira) deu lugar a que os brasis de suas densas matas, mais e melhor de todos, desse nome a toda a província, isto é, a todo o Brasil.

Conclusão dos autores do Sumário, quatrocentos anos depois encampada pelo paraibanismo do Sitônio: foi o pau da Paraíba que tingiu o nome do Brasil.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.