sábado, 14 de fevereiro de 2026
O palhaço que perdeu a cabeça no Carnaval
14/02/2026

Eu era pequeno e o mundo ainda cabia na mão do meu pai. Naquele sábado de Carnaval, a Rua Grande parecia maior que o planeta. Em frente ao posto de gasolina de Zé de Horácio, a cidade fervia como panela esquecida no fogo: homens jogavam maisena uns nos outros, nuvens brancas subiam ao céu azul de Princesa; desodorante espirrava no ar como chuva perfumada; havia gargalhadas largas, gritadas, exageradas.
Vi homens vestidos de mulher, com batom torto e salto vacilante. Vi mulheres de paletó e bigode desenhado a lápis. Vi mascarados com rostos de papelão e olhos faiscando por trás dos furos. A música vinha de um som improvisado na carroceria de uma caminhonete, misturada ao cheiro doce da poeira, da gasolina e de um perfume guardado em lenços úmidos que passavam de mão em mão.
Foi então que aconteceu.
Um palhaço, lá no alto da carroceria, dançava como se desafiasse o céu. Tinha roupa colorida demais para caber na vista, e um riso pintado que parecia maior que a própria alegria. Num tropeço — ou num milagre ao contrário — a cabeça se desprendeu do corpo e caiu. Desgrudou-se como se fosse peça de brinquedo. Rolou pela madeira, quicou no chão, parou aos meus pés.
Senti um frio nas pernas.
— Pai, o palhaço perdeu a cabeça!
Meu pai segurou mais firme a minha mão. Olhou para a multidão que girava em delírio, para a poeira branca que subia como fumaça de guerra festiva, e disse, com uma calma que só os adultos fingem ter:
— Filho, todos perderam a cabeça hoje.
A cabeça do palhaço era de máscara. O corpo continuava vivo, dançando sem rosto, enquanto alguém recolhia o sorriso pintado do chão. Mas para mim aquilo foi revelação. Descobri que o Carnaval era o único dia em que as pessoas podiam se desmontar em público — perder a cabeça, trocar de nome, virar o contrário do que eram — e ainda assim voltar inteiras para casa.
Anos depois, entendi que meu pai falava de outra coisa. Falava da liberdade breve que o povo se permitia. Da coragem de ser outro por algumas horas. Da licença para rir alto, para borrar os contornos, para deixar cair as máscaras — ou as cabeças — sem que o mundo acabasse.
Hoje, quando lembro daquele sábado em Princesa, não vejo mais o susto. Vejo a mão do meu pai segurando a minha. Vejo o sol batendo na poeira branca. Vejo a cabeça colorida rolando como um segredo revelado.
E penso que talvez a infância seja isso: o instante em que acreditamos que alguém realmente perdeu a cabeça — antes de aprender que, no fundo, era só a cidade inteira querendo se esquecer de si por um dia.

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