“Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. E, reconhecido em figura humana, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte — e morte de cruz.”
(Filipenses 2,6–8)
Há uma cena quase esquecida no Evangelho de Marcos: um jovem segue Jesus na noite da prisão, coberto apenas por um lençol. Quando tentam segurá-lo, ele larga o pano — e foge nu. É uma cena rápida, quase indecorosa, mas não está ali por acaso. É o homem.
Há intérpretes que consideram que aquele homem seria o próprio Marcos. Ainda que o fosse, a cena não se dispensa da simbologia: largar o linho branco e desaparecer, nu.
O homem começa coberto. Coberto de fé, de palavras, de intenções, de promessas. Coberto de si mesmo. Mas, quando a noite aperta, quando a verdade exige corpo, quando já não há plateia, ele larga tudo e foge. E foge nu.
A nudez não é escândalo. É revelação. Desde o Gênesis, o homem teme estar nu — não porque não tenha roupa, mas porque já não suporta ser visto. A roupa é defesa; a nudez é verdade.
Naquela noite, tudo se despe: os discípulos abandonam, Pedro nega, a coragem desaparece. O jovem nu é o retrato final — o homem sem justificativa. Mas há um detalhe decisivo: ele foge.
Cristo não.
Também será despido, também será exposto, também será reduzido ao corpo, ao silêncio e à dor. Mas permanece. E, nesse caminho, algo mais profundo acontece: não é Deus que se retira, é a distância que se desfaz. Aos poucos, cai a ideia de um divino inacessível, protegido, litúrgico, hierarquizado, inalcançável. O que se revela é outra coisa — mais próxima, mais dura, mais verdadeira: o divino vivido por dentro do humano.
Dizem: “Eis o homem.” E ali está — sem ornamento, sem proteção, sem disfarce. Não o homem que foge da nudez, mas o homem em quem nada mais separa o humano do divino.
Não há mais templo. Ou melhor: o templo mudou de lugar. Não está mais na pedra, nem no rito, nem na aparência. Está no corpo — no corpo que sofre, no corpo que permanece, no corpo que não foge. O que antes se buscava fora, agora se revela dentro. “Vós sois o templo onde habita Deus.”
O homem nu corre porque não suporta ser visto. Cristo permanece porque nada tem a esconder — e, por isso, revela tudo. Não um Deus distante, mas um Deus que se deixa encontrar onde o homem sempre evitou ficar: na própria nudez.
Aquela nudez que o homem exibe em público é o oposto da nudez envergonhada de Adão e Eva, postos diante de Deus. Se o Cordeiro, no paraíso, cobriu a nudez do homem, aqui é a nudez do homem que conduz o Cordeiro à imolação — já não para esconder, mas para salvar.
Entre os dois há um abismo — e é nele que vivemos.
Toda a nossa vida oscila entre cobrir-se ou sustentar-se, fugir ou permanecer. O jovem nu é o que poderíamos ser — e quase sempre somos. Cristo é o que o homem é quando não recua.
E, no fim, tudo se resume a isso: não ao que dizemos, não ao que cremos, mas ao que permanece quando tudo o resto é tirado. A nudez não é perda. É juízo — e também revelação. Porque só quando a ideia de Deus cai, Deus pode, enfim, ser visto onde sempre esteve: no humano que permanece.
Dispa-se. O que ainda há em você que precisa de roupa para se exibir?
