É impensável. É quase inacreditável. Mas é real: o Flamengo tem, neste momento, a pior campanha do Campeonato Carioca. Não é figura de linguagem, não é provocação de rival, não é exagero retórico. É número frio, tabela aberta, estatística escancarada. Depois de empatar com a Portuguesa, perder para o Bangu e ser goleado por 3 a 0 pelo Volta Redonda, o Flamengo assina o pior início de estadual de sua história.
E não há asterisco que alivie esse registro. A história não anota contexto, não explica escolhas, não justifica estratégias. A história não escreve “time sub-20”, não acrescenta “pré-temporada”, não ressalva “elenco poupado”. O que fica é o escudo, a camisa rubro-negra, a instituição Flamengo. O patrocinador que paga as contas é o mesmo. A camisa que entra em campo é a mesma. E o nome que vai para a estatística é um só: Flamengo.
O roteiro deste desastre inicial é constrangedor. Um tropeço na estreia que soou estranho, uma derrota para o Bangu que acendeu o alerta e, agora, uma goleada seca, sem reação, diante do Volta Redonda. Quando o Flamengo começou mal o Campeonato Carioca, a advertência foi feita aqui na coluna: a base pode até cumprir um papel, mas o campeonato não espera e a memória não perdoa. Resultado ruim vira marca. Sequência ruim vira histórico negativo.
A goleada sofrida no Raulino de Oliveira acendeu uma luz amarela que a diretoria parecia disposta a ignorar. O plano era claro: poupar os titulares, esticar a recuperação do elenco principal e tratar o Carioca como um incômodo menor, uma pré-temporada disfarçada. O problema é que o regulamento não reconhece essa lógica. A tabela não faz concessões. E o campeonato cobra.
Hoje, o risco de rebaixamento não é retórico nem alarmista. Ele é real, matemático e profundamente constrangedor. O Flamengo ocupa a lanterna do Grupo B, soma apenas um ponto em três jogos e tem, até agora, a pior campanha geral da competição. É o último colocado entre todos os clubes do Carioca.
Pelo regulamento, os dois piores times de cada grupo entram no chamado quadrangular da morte. Quatro clubes disputam essa fase. Um cai para a Série A2. Se o Flamengo não reagir imediatamente, especialmente nos confrontos contra Vasco e Fluminense, a possibilidade de disputar esse quadrangular deixa de ser remota e passa a ser concreta. Um cenário que, até pouco tempo atrás, soaria como piada. Hoje, é ameaça real.
A raiz do problema é conhecida. O time principal entrou de férias tarde, após a final da Copa Intercontinental, disputada em 17 de dezembro de 2025. A solução foi lançar a base no estadual. O sub-20 até mostrou organização em alguns momentos, mas foi insuficiente quando o campeonato exigiu mais. A goleada para o Volta Redonda escancarou isso sem piedade.
O peso maior, porém, é simbólico. O Flamengo trata o Campeonato Carioca com desdém há anos. Minimiza o torneio, desvaloriza a competição, esvazia estádios, derruba audiência e fragiliza o futebol local. É difícil imaginar que esse comportamento não tenha consequências. O prejuízo não é apenas esportivo. É institucional.
O Carioca pode não ser prioridade esportiva, mas é parte da história, da identidade e da responsabilidade do Flamengo como maior clube do estado. Quando essa história é ignorada, o preço pode ser alto demais. E neste início de temporada, o Flamengo flerta com uma mancha que nenhuma justificativa apaga: o risco real, concreto e histórico de rebaixamento.