quinta-feira, 30 de abril de 2026
O estelionatário paraibano
30/04/2026

   Ele trocou imóveis que não existiam, cujas escrituras falsificara, por um navio; vendeu o parque do Ibirapuera; comprou e em seguida faliu fraudulentamente várias empresas. Era o melhor na sua profissão.

  Nascido na cidade de Esperança, aqui na Paraíba, J. D. A. foi morar na então Guanabara e alistou-se no Exército, sendo expulso logo depois de aplicar alguns golpes. Seguiu para São Paulo em 1944, onde pretendia regenerar-se. Trabalhou como mecânico, carpinteiro, pedreiro… porém trabalhar não lhe convinha. Alto, educado, bem apessoado, do seu histórico carioca já constavam o roubo de cheques, letras de câmbio falsificadas e outros pequenos ilícitos. Na capital paulista continuou aplicando seus golpes, sempre falsificando documentos, porém só inaugurou suas sucessivas estadas na cadeia em 1954. Ali permaneceu por vários anos, onde segundo ele próprio, concluiu seu curso de bandidagem.

  Porém o que importa são os golpes. Depois de mais uma temporada na cadeia, ele foi liberado sem um tostão. Ao passar em frente ao parque do Ibirapuera deu com uma barraquinha de frutas. Aos gritos disse que era o dono do terreno e que o fruteiro saísse imediatamente dali ou lhe pagasse aluguel. Por mais de dois anos recebeu duzentos cruzeiros por mês do “aluguel”. Até que um dia, já muito rico, dispensou o Sr. Picchia dos pagamentos.

  Tinha um bom coração.

  Esse mesmo “terreno”, ou seja, o parque do Ibirapuera, ele vendeu por uma fortuna, munido de uma falsa procuração da Sra. Elvira Magro.

  Acumpliciado com os antigos colegas de curso na cadeia, comprou e faliu fraudulentamente algumas industrias, como a Pirassununga S/A (papel e papelão) e muitas farmácias, padarias e lojas.

  A perfeição veio com a troca de vários imóveis por um navio. Isso mesmo, o navio São Pedro, do armador Uraquitá Bezerra Leite. Foi preso e perguntado onde estava o navio, disse ao Delegado: “- Dr., para que eu queria um navio se nem sei nadar? Meu negócio é com terras. Vendi o navio como sucata”. O Delegado então obrigou-o a entregar todo o seu patrimônio para ressarcir as vítimas. Nosso conterrâneo meteu a mão no bolso e puxou uma cédula de dez cruzeiros. Era tudo que havia sobrado dos seus 30 anos de golpes.

  P.S. Terminado o texto, encontrei dois esperancenses (melhor esperançosos, né?) que confirmaram a história, sendo que um deles, ainda jovem à época, viu a chegada de 40 ônibus que nosso “herói” levara para esconder em Esperança, fruto de mais um golpe dado em São Paulo. Depois vendeu-os por todo o Nordeste.

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Marcos Pires
Marcos Pires

Marcos Pires é advogado, escritor e carnavalesco.