quinta-feira, 19 de março de 2026
O cântaro na fonte é a roldana no poço
18/03/2026

Agnaldo Almeida acordou-me de madrugada, o telefone em alarme. Tirou-me do sonho, um sonho pirado, em torno de coisas sobre as quais juro que não fui dormir pensando.

Sonhei que estava debruçado entre as colunas dóricas ou toscanas da antiga redação de A União, o olhar na praça João Pessoa e a atenção voltada para Juarez Batista, que havia acabado de entrar sutilmente de branco em seu gabinete. De repente, nos víamos em pânico, colhidos pelo tremor de todo o assoalho de pinho de riga e de cedro do prédio primitivo.

Corri na direção do gabinete e voltei à sacada, onde as noites de verão frequentemente vinham nos servir as suas estrelas.

Fomos surpreendidos com o Palácio da Redenção desmoronando, todo em ruínas, e apenas a escada de mármore de pé, única parte incólume na densa nuvem de escombros, o último degrau dando para o infinito.

Salvador Dali?

Da praça ao Ponto de Cem Réis, a rua era uma loucura, a polícia atrás do povo, ambos sem saber por quê. Não há nexo possível entre o desabamento e a carreira alucinada. O repentista Zé Calvacanti sobe na marquise do Paraíba Hotel e pede calma. Diz que há tempo de atirar pedras e tempo de juntá-las.

O que está havendo, afinal? Ouve-se dizer que estão à procura de Martim Leitão que, se recusando a governar, saiu à procura de homizio, batendo em portas fechadas.

À falta dele, ponha-se qualquer um, gritam de algum lugar, enquanto alto-falantes invisíveis gritam do céu que o Poder é dos insensatos: “Os insensatos são colocados em cargos importantes, enquanto os homens dotados ocupam os postos mais baixos”.

Loucura.

No pesadelo o alarme era de sirene, irritante, aguda. No telefone era Agnaldo.

Esta hora? Gente doente, gente presa ou o Palácio teria realmente ruído?

• Você sabe que eu só lhe chamo para coisa realmente importante.

• Que foi que houve?

• Já leste o Eclesiastes? – perguntou-me em tom de urgência.

E começou, ali mesmo, de manhã, a recitar as sentenças e maravilhas que acabavam de impressioná-lo, atraído pela matéria recente do suplemento do jornal sobre o sábio Coélet.

Acredito que acordei, mas não mudei de estado: o sonho continuou pelo telefone até “se quebrar o cântaro na fonte e se partir a roldana no poço”.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.