Agnaldo Almeida acordou-me de madrugada, o telefone em alarme. Tirou-me do sonho, um sonho pirado, em torno de coisas sobre as quais juro que não fui dormir pensando.
Sonhei que estava debruçado entre as colunas dóricas ou toscanas da antiga redação de A União, o olhar na praça João Pessoa e a atenção voltada para Juarez Batista, que havia acabado de entrar sutilmente de branco em seu gabinete. De repente, nos víamos em pânico, colhidos pelo tremor de todo o assoalho de pinho de riga e de cedro do prédio primitivo.
Corri na direção do gabinete e voltei à sacada, onde as noites de verão frequentemente vinham nos servir as suas estrelas.
Fomos surpreendidos com o Palácio da Redenção desmoronando, todo em ruínas, e apenas a escada de mármore de pé, única parte incólume na densa nuvem de escombros, o último degrau dando para o infinito.
Salvador Dali?
Da praça ao Ponto de Cem Réis, a rua era uma loucura, a polícia atrás do povo, ambos sem saber por quê. Não há nexo possível entre o desabamento e a carreira alucinada. O repentista Zé Calvacanti sobe na marquise do Paraíba Hotel e pede calma. Diz que há tempo de atirar pedras e tempo de juntá-las.
O que está havendo, afinal? Ouve-se dizer que estão à procura de Martim Leitão que, se recusando a governar, saiu à procura de homizio, batendo em portas fechadas.
À falta dele, ponha-se qualquer um, gritam de algum lugar, enquanto alto-falantes invisíveis gritam do céu que o Poder é dos insensatos: “Os insensatos são colocados em cargos importantes, enquanto os homens dotados ocupam os postos mais baixos”.
Loucura.
No pesadelo o alarme era de sirene, irritante, aguda. No telefone era Agnaldo.
Esta hora? Gente doente, gente presa ou o Palácio teria realmente ruído?
• Você sabe que eu só lhe chamo para coisa realmente importante.
• Que foi que houve?
• Já leste o Eclesiastes? – perguntou-me em tom de urgência.
E começou, ali mesmo, de manhã, a recitar as sentenças e maravilhas que acabavam de impressioná-lo, atraído pela matéria recente do suplemento do jornal sobre o sábio Coélet.
Acredito que acordei, mas não mudei de estado: o sonho continuou pelo telefone até “se quebrar o cântaro na fonte e se partir a roldana no poço”.