Enquanto o garoto dava uma demão d’água no fusca, fiquei no banco, o olhar atraído pelo interior iluminado da Igreja do Carmo. É domingo à tarde, modorrento como toda tarde de domingo.
O Carmo é dos poucos quarteirões do centro onde ainda restam algumas antigas residências. Mesmo abrigando consultórios médicos, escritórios vários, o casario continua doméstico, embora de portas fechadas, sem gente à janela que componha o ar da tarde e se enrede no cenário de feitos e celebrações religiosas.
Não passa ninguém. O pequeno lavador arrepia o silêncio com o assovio de uma música antiga, música do tempo de seus avós, cantada de pai a filho, e agora entoada no bico carente da última geração.
Fatalmente terá sido isto: de avô a neto, o tempo da música não deve ter transcorrido no âmbito da mesma escala social. Um curtia a “Chiquita Bacana” nos salões, o outro solfeja enquanto lava o carro. O que progrediu na escola do país, erigindo-o à oitava economia do mundo, exportador de armas e aviões, regrediu na escala social, do avô folião ao neto biscateeiro.
A modorra ambiente e a completa lassidão do corpo e da mente deixam-me exposto às mais frouxas ideias e sentimentos. Aberto a clichês estocados na memória, como “o progresso não é igual para todos”, ou à maldição de um século e meio atrás, nessa mesma igreja, quando o frei Gabriel, da Ordem de Malta, rogou a praga que surte ainda hoje nas costas da Paraíba: “Esta terra não prosperará enquanto existir lembrança de meu sangue na parede desta igreja”.
Na hora do sermão, numa manhã distante de 1825, arremessaram uma pedra na cabeça do frade. A dor foi tão grande que levou o religioso a pôr as mãos para os céus, cair de joelhos e lançar o anátema que ainda hoje repercute.
Se não curtisse tanta preguiça, teria entrado na igreja para examinar se ainda restam resquícios do sangue salpicado há tantas gerações!
Diligente, animado, será que esse menino ainda paga por isso? Com tanto tempo decorrido, vendo de cima a nossa penúria, o santo frade já deve ter dado última forma à nossa maldição, mesmo que palavras ditas e pancadas dadas nem Deus tire.
De qualquer forma a desolação vem de longe, pois fazendo o elogio da Independência, Francisco Xavier Monteiro, ancestral de sucessivos prefeitos e poetas, já se referia à Paraíba com maus augúrios:
“Não é de infaustos tronos levantados/ sobre estrago e ruína de desolada gente, nem de ultrajada herança derivados/ que eu traço a narração”.
São as palavras sofridas do primeiro poeta nativo de que temos notícia.