quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Números que só nos envergonham 
26/01/2026

O Brasil acaba de receber mais um triste e violento título: segue sendo o país que mais mata pessoas transexuais e travestis no mundo. Em 2025, foram registrados 80 assassinatos, segundo o mais recente dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), lançado nesta segunda-feira, 26. Um número que não é apenas estatística, mas um retrato cru de uma realidade que insiste em repetir o ódio, a exclusão e a indiferença.

Oitenta vidas interrompidas. Oitenta histórias apagadas pela violência transfóbica. Por trás de cada número, há um nome, um rosto, sonhos, lutas e uma existência que foi violentamente negada. A maioria dessas mortes é brutal, marcada por requintes de crueldade que revelam mais do que ódio: revelam um projeto de extermínio. Um projeto que busca, a cada facada, a cada tiro, a cada espancamento, dizer que algumas vidas valem menos, que algumas identidades não merecem existir.

E onde está a resposta do Estado? Onde está a proteção? Os dados da Antra mostram, mais uma vez, que a violência não ocorre no vazio. Ela é alimentada pela ausência de políticas públicas efetivas, pela lentidão da justiça, pela invisibilidade midiática e pela perpetuação de preconceitos em todas as esferas da sociedade. Muitas dessas mortes sequer são investigadas com a devida diligência, e os crimes de ódio frequentemente são registrados como “briga de rua” ou “motivo fútil”, apagando a dimensão transfóbica do crime. É uma violência dupla: primeiro a da agressão, depois a do apagamento.

Não podemos normalizar essa carnificina. Ocupar o primeiro lugar nesse ranking macabro há mais de uma década não é um acidente; é um sintoma grave de uma sociedade doente. Uma sociedade que, muitas vezes, trata a identidade de gênero como uma aberração, nega o acesso ao mercado de trabalho formal, fecha as portas das escolas, dos hospitais e até das próprias famílias para pessoas trans e travestis, empurrando-as para a marginalidade. A expectativa de vida de uma travesti ou mulher trans no Brasil ainda é em torno de 35 anos. Isso não é um destino; é uma sentença social.

O dossiê da Antra é mais do que um relatório; é um grito. Um grito por justiça, por memória e por ação. Enquanto legisladores discutem projetos que tentam barrar o reconhecimento da identidade de gênero nas escolas e em outros espaços, corpos continuam tombando nas ruas. Precisamos escolher: de que lado da história queremos estar? Do lado que perpetua o discurso de ódio que alimenta essa violência, ou do lado que defende a vida, a dignidade e o direito fundamental de ser quem se é?

Honrar essas 80 vidas perdidas em 2025 exige mais do que luto. Exige revolta transformada em movimento. Exige pressionar por leis que criminalizem a LGBTfobia de maneira eficaz, por políticas de inclusão no emprego e na educação, por uma segurança pública que proteja, e não que também agrida. Exige, sobretudo, um exercício diário de humanidade: enxergar, respeitar e valorizar a diversidade.

O Brasil não pode continuar se acostumando a esse banho de sangue. Chega de véu de vergonha sobre essa pauta. É hora de falar, de agir e de exigir: nenhuma morte a mais. Nenhuma vida trans a menos.

A vergonha não é de quem luta para viver, mas de quem permite que esse extermínio continue.

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Sem Vergonha
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Essa não é uma coluna pornográfica – longe disso. O casal João e Maria vai falar falar sobre sexo com respeito, leveza e sem rodeios, abordando os temas que fazem parte da vida de todas as pessoas, casais, homens e mulheres. Escreva pra nós: redacao@onorteonline.com