
A vitória do Santos sobre o Remo pela 9ª rodada tirou o time da zona de rebaixamento, mas o que realmente chama atenção é a presença de Neymar em campo durante os 90 minutos. Depois de um longo período de ausências e atuações irregulares, o fato de conseguir dar duas assistências já vira notícia. Mas não podemos dizer que foi uma atuação espetacular, porque não foi.
Neymar segue sendo o centro gravitacional do Santos. Toda bola passa por ele ou tenta passar. Os companheiros acabam condicionados a procurá-lo a qualquer custo. Não é só uma questão tática – é comportamental. Existe uma espécie de obrigação silenciosa de entregar o jogo ao camisa 10. E isso não nasce de imposição explícita, mas de uma liderança que, neste momento, mais atrapalha do que ajuda.
Porque Neymar é considerado pelos companheiros um sujeito “gente boa”. É o “parça”, o cara que construiu relações fortes por onde passou. No vestiário, é admirado, respeitado, tratado como celebridade. No Santos, isso se traduz quase numa hierarquia informal. Ninguém quer desagradar Neymar. Ninguém quer deixar de tocar a bola para ele. E isso, num time que já é tecnicamente frágil, engessa ainda mais o jogo coletivo.

O problema é que essa liderança só funciona plenamente quando acompanhada de desempenho. No auge, Neymar poderia assumir esse protagonismo sem qualquer questionamento – porque resolveria. Hoje, não resolve. Falta ritmo, falta intensidade, falta capacidade física para sustentar o peso que ele mesmo carrega.
E esse cenário se torna ainda mais delicado quando se projeta a Seleção Brasileira. Neymar é chamado de “presidente” pelos próprios jogadores do Brasil, tamanho o respeito e a admiração que desperta. Agora imagine esse mesmo padrão se repetindo em uma Copa do Mundo: um grupo inteiro condicionado a jogar em função de um atleta que não está em sua melhor forma. É um risco evidente. Carlo Ancelotti sabe disso.
O técnico italiano sabe também qual é o verdadeiro conceito de protagonismo e isso ficou evidente nesta Data Fifa. Luiz Henrique e Endrick mostraram, nos amistosos contra França e Croácia, o que realmente pesa na balança. Não pediram espaço, não reclamaram, não dependeram de status. Entraram e decidiram. Foram protagonistas porque entregaram desempenho.
É exatamente este o único caminho possível para o retorno de Neymar à Seleção. Não será pelo nome, pelo histórico ou pela liderança no vestiário. Será pela bola.
Se estiver bem, ele naturalmente será o centro do jogo. Mas, enquanto não estiver, insistir em ser o dono do time – seja no Santos ou em qualquer outro lugar – tende a ser mais um problema do que uma solução.