
O transfer ban é uma espécie de “SPC do futebol mundial”. O clube que não paga o que deve fica com o nome sujo e perde o direito de registrar jogadores.
Foi onde o Santos parou por causa de uma dívida de aproximadamente R$ 12 milhões com o Monaco. Sem dinheiro para limpar o nome, o clube recebeu a ajuda da NR Sports, empresa da família de Neymar.
O episódio ajuda a explicar por que Neymar tem tanto poder na Vila Belmiro.
Imagine, por exemplo, uma empregada doméstica contratada por um salário muito acima da média. Depois de algum tempo, o patrão começa a atrasar seus pagamentos. Ela descobre também que falta dinheiro para a feira, que a conta de luz está vencida e que o banco ameaça tomar a casa.
Como fez uma boa reserva durante a vida, a funcionária resolve ajudar. Paga a energia, enche a despensa e ainda acerta a dívida bancária do patrão.
Na manhã seguinte, o dono da casa aparece e avisa:
— Hoje você precisa limpar a casa inteira.
Ela olha para ele e responde:
— Não vai dar, chefe. Eu não trabalho em piso sintético.
Qual é a autoridade que restou ao patrão para reclamar?
Guardadas as proporções, essa é a relação entre Neymar e o Santos. O clube contratou o jogador mais caro do futebol brasileiro, aceita suas condições e agora depende da empresa de sua família até para pagar dívidas.
No meio da semana, o Santos levou um “sacode” de 3 x 0 do Palmeiras pela Copa do Brasil, e Neymar não jogou. A partida foi disputada em gramado sintético, piso que ele evita por receio de novas lesões.
Seria uma decisão mais fácil de compreender se estivéssemos falando de um jogador comum, com salário comum e influência comum. Não é o caso.
Neymar recebe o maior pacote financeiro do futebol sul-americano. Ainda assim, pode escolher os jogos dos quais participa. E o Santos, com o pires na mão, não reúne força financeira nem autoridade para contrariá-lo.
O clube paga Neymar para jogar. A família de Neymar ajuda o clube a pagar as contas.
Nessa altura, fica difícil saber onde termina o empregado e começa o patrão.
Não é necessário procurar uma grande conspiração para descobrir quem manda nessa relação. Basta seguir o dinheiro.
Quando o funcionário ganha mais do que a empresa pode pagar, socorre o caixa e ainda limpa o nome do patrão, o organograma muda sozinho.
No papel, Neymar continua sendo jogador do Santos.
Na prática, já parece o dono da casa.

