
Nesta segunda-feira, 18 de maio, o Brasil para diante da TV. Carlo Ancelotti sobe ao palco para anunciar os 26 convocados para a Copa do Mundo. Mas a liturgia do ato esconde um suspense que já virou drama nacional: Neymar vai ou não vai?
Aos 34 anos, o camisa 10 do Santos concentra sobre si uma polarização que transcende o futebol. Metade do país quer o craque. A outra metade acha um absurdo convocá-lo. É a guerra dos extremos que já não escolhe mais campo: invade a política, as redes sociais e agora a seleção brasileira.
O que pouca gente lembra, porém, é que o futebol brasileiro já foi implacável com ídolos maiores do que Neymar. E em situações, pasme, muito melhores do que a atual.
Comecemos por Romário. Em 2002, o Baixinho tinha 36 anos – apenas dois a mais que Neymar hoje – e acabara de ser artilheiro do Campeonato Carioca pelo Fluminense. Era o artilheiro do Brasil, ídolo incontestável. Acabou preterido por Felipão na lista do penta. Na época, houve reclamação. Mas nem de longe a comoção de hoje.
Passemos a Ronaldo Fenômeno. Em 2010, ele tinha 33 anos – um a menos que Neymar agora – e vivia ainda momentos de glória no Corinthians. Foi artilheiro do Paulistão e decisivo na campanha que levou o Timão à Libertadores. Mesmo assim, Dunga o ignorou. O maior artilheiro da história das Copas até então ficou em casa. E o Brasil aceitou.
Eis Ronaldinho Gaúcho. Em 2014, com os mesmos 34 anos de Neymar hoje, o Bruxo encantara o mundo na conquista da Libertadores pelo Atlético-MG. Aos 34, dava show. Felipão, porém, nem pestanejou: deixou-o fora da Copa no Brasil. O país reclamou, mas não se dividiu ao meio.
O que mudou, então? Por que Romário, Ronaldo e Ronaldinho – todos ganhadores da Bolas de Ouro da Fifa, todos em fase melhor que a de Neymar em 2026 – foram preteridos sem que a nação se rasgasse ao meio, enquanto hoje a metade da torcida exige um craque “meia boca” e a outra metade o rejeita como se fosse um estranho?
A resposta é triste. O Brasil não se divide mais apenas por político ou por vacina. Dividiu-se também por Neymar. O que antes era critério técnico virou trincheira. Ancelotti, neste 18 de maio, não anuncia apenas 26 nomes. Ele desnuda o retrato de um país que já não sabe mais o que é paixão e o que é rancor.
E qual é a conclusão que podemos tirar? Que Romário, Ronaldo e Ronaldinho aceitaram a aposentadoria sem reclamar. E que Neymar, hoje, tenta provar que o relógio funciona diferente para ele. Mas a história, essa senhora implacável, nunca perdoou ninguém.
