O mundo aprendeu tarde demais uma lição simples: não se deve desprezar ideia de doido, porque doido, quando cisma, tenta transformar fantasia em realidade — e aí a tragédia chega com cheiro ruim.
É assim desde os tempos antigos. Primeiro, o sujeito diz uma maluquice qualquer, como quem joga conversa fora. Todos riem, abanam a cabeça, seguem a vida. Mas o doido não. Ele rumina. Ele acredita. Ele mastiga a própria ilusão como quem prepara um banquete. E, quando menos se espera, tenta comer fezes achando que é goiabada.
Foi assim com muita gente grande por aí: começa querendo comprar a Groenlândia, termina achando que pode desenhar o mundo conforme seus caprichos. A sandice, quando encontra plateia distraída, vira método. E um delírio repetido com cara séria acaba soando plausível aos ouvidos de quem perdeu o juízo ou nunca o encontrou.
Por isso, aprendi a tratar a maluquice alheia como quem observa um fósforo aceso perto de um galpão de pólvora. Ideia de doido não se ignora. Contradiz-se, desmonta-se, ri-se com cuidado, mas jamais se deixa solta como cabra no roçado. Porque o doido pode até não enxergar o ridículo — mas o estrago, esse, ele enxerga bem.
No fim das contas, não há perigo maior do que um maluco com tempo livre, plateia e poder. Gente assim não distingue fantasia de sobremesa; quando percebe, já colocou no prato aquilo que deveria ir pro esgoto.
E o pior: jura que está saboreando goiabada.
