quinta-feira, 5 de março de 2026
Na sombra das Artes
05/03/2026

Na noite de terça-feira, dia 24 de fevereiro, quando aconteceu a sessão póstuma para lembrar Chico Pereira, ficará na lembrança da Academia Paraibana de Letras como um momento marcante.
Chico trouxe para a Academia a unidade do pensamento humanista representado nas artes e nas letras.
Sua obra se perpetuará como uma sombra para quem procura abrigo nas Artes.
Edificada com obras densamente humanas, a sombra de Chico acolhia a todos carentes do alimento que a Arte oferece, porque tudo observava com sutileza.
Podemos dizer que seus gestos sintetizavam a harmonia entre a Academia e as manifestações da alma de quem produz e necessita da Arte como alimento.
O acadêmico Hildeberto Barbosa Filho falou em nome da Academia, ressaltou a caminhada de Chico Pereira pelas Artes e pelas Letras e destacou ter sido ele um artista de gestos poéticos.
Outro destaque na sessão foi o pronunciamento de Rayssa, filha de Chico, que, pela sutileza das palavras e beleza dos gestos, emocionou os presentes.

A JORNADA DAS PALAVRAS DE CHICO PEREIRA
(Rayssa Soares Pereira)
A humanidade sempre apresentou a necessidade de eternizar aquilo que o tempo poderia apagar; por isso, criou a letra. A palavra “texto” vem do latim textus, que significa tecido. Portanto, escrever é, literalmente, tecer fios. A letra que compõe a palavra, sozinha, é apenas um símbolo; juntas, produzem um significante.
Sendo assim, o Mestre, que tem o domínio das palavras, sabe bem que, embora seja aquele que conduz os fios, não tece apenas sobre si mesmo, pois sua própria história é costurada em tantas outras palavras — daquelas que se foram e das que ainda estão presentes — alinhavando os fios da linguagem. Chico Pereira não apenas escrevia, mas tecia palavras com o novo e o antigo, o grande e o pequeno, com muitos instrumentos ou quase nenhum. E, enquanto os egípcios usavam os hieróglifos e os sumérios, os cuneiformes, ele, por sua vez, usava sua generosidade para tecer em almas e cravar o conhecimento em nossos corações.
Passear pela história nos leva a questionar: onde habita o coração dos grandes mestres? Certamente, na simplicidade.
A palavra simplicidade é uma das mais profundas da nossa língua. Significa aquilo que só possui uma dobra ou que não as possui. Ele foi um Mestre sem dobras, desapegado, sem mistérios ou cerimônias. Sua palavra fazia morada na simplicidade.
E sua casa possuía portas abertas para todos, pois compreendeu, desde muito cedo, que a palavra só se torna grande quando circula livremente.
Leonardo da Vinci nos conduz à reflexão de que a simplicidade é o último grau da sofisticação. Portanto, para um verdadeiro mestre, o triunfo é conseguir traduzi-la a todos.
Chico Pereira sentou-se na Cadeira 15 desta Grande Casa, a Academia Paraibana de Letras, manifestando o prazer e o compromisso de que a palavra não deveria ser intocável, mas, sim, um fio condutor de gerações, guardiã da história.
Assim o fez com maestria, honrando o legado daquele que a criou, Eugênio Toscano de Brito, que fez da palavra cura e do ensino, caminho, bem como ao lado de tantos outros condutores da palavra — Augusto dos Anjos, José Lins do Rego e Ariano Suassuna — que defenderam a cultura como instrumento de transformação, fazendo da palavra ponte.
Hoje, com generosidade, Chico Pereira cede seu lugar para que outro mestre possa assentar-se à mesa desta Casa.
Agradecemos as homenagens em vida e as póstumas e queremos convidar para que sua palavra continue sendo visitada, não apenas lida. Que seus passos encontrem as obras que permanecem no Museu da História da Paraíba; que se detenham diante da criação erguida na Estação Cabo Branco — Ciência, Cultura e Artes, a pedido de Oscar Niemeyer; que reconheçam sua presença no grafite de Sponja, na Praça Aristides Lobo, 129, no Centro de João Pessoa; e que embarquem nessa travessia sensível do livro “Paraíba Memória Cultural’.
A obra de Chico Pereira não repousa; ela espera. E cada visita é um reencontro com a nossa própria história.
Com a palavra, eternamente, Chico Pereira.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).