– Eu sou essa mulher!
A senhora parecia turista. Não pelo jeito de andar — que era firme —, mas pelo cuidado com que observava tudo, como quem mede o chão antes de pisar. Estava sentada com a família, cercada de jovens que tinham mais futuro do que passado, desses que escutam histórias como quem ouve lendas, sem saber direito onde termina o mito e começa a carne.
Falava pouco. Guardava no rosto uma angústia antiga, dessas que não se resolvem com o tempo, só se acomodam no osso. De quando em quando, olhava para a televisão do bar, ligada sem som, como um oráculo distraído. Até que a notícia apareceu: tortura, cela, laudo médico. Palavras que não envelhecem nunca — só mudam de roupa.
Ela então falou, com uma voz trêmula. Não foi anúncio, nem desabafo. Foi memória em voz baixa, dessas que não pedem resposta.
Disse que o filho havia morrido torturado numa cela do DEOPS, sob o comando de um delegado tirano chamado Fleury. Disse que tudo fora declarado correto, regular, aceitável, pela medicina legal de um médico chamado Harry Shibata. O nome saiu seco, sem raiva. Como quem repete algo que a dor já decorou.
Falou do laudo como quem fala de uma sentença irrevogável. A tortura fora absolvida pela ciência. O porão, legitimado pelo carimbo. O corpo do filho, reduzido a papel.
Disse, ainda, que nunca pensou que aqueles demônios voltariam. Voltariam não como lembrança, mas como assombração viva, repaginada, com outro discurso, outra encenação — e a mesma vocação de verdugo com a sua ordália inclemente. Não falou de política. Não precisava. Há coisas que se explicam sozinhas quando retornam.
O bar inteiro silenciou. Não foi respeito cerimonioso — foi silêncio de reconhecimento. Como quando alguém diz, finalmente, o nome certo daquilo que todos fingem não ver.
Os jovens não perguntaram nada. Talvez por cuidado. Talvez por medo. Foi então que ela completou, olhando para o copo, não para eles, como quem assina o próprio nome num registro antigo:
— Eu sou, ainda, aquela mulher.
Ninguém brindou. Ninguém comentou. O garçom demorou a trazer a conta. Do lado de fora, o mar seguia batendo, alheio como sempre. Mas ali, naquela mesa, a história não era passado.
Era presença.
E era mãe.
E era a esposa.