Abordagem na nova Diretriz Europeia
*Por João Modesto Filho
Atualmente, a menopausa não deve ser encarada apenas como o momento em que cessam as menstruações. Uma nova diretriz da European Society of Endocrinology propõe uma abordagem mais ampla tanto da perimenopausa como da pós-menopausa, valorizando sintomas, riscos individuais, qualidade de vida e prevenção de complicações.
Nesses termos, um dos avanços mais importantes está no diagnóstico. Assim, em mulheres com mais de 45 anos, a combinação de irregularidade menstrual e sintomas típicos, como ondas de calor e sudorese noturna, geralmente é suficiente. Por seu turno, exames hormonais, especialmente o FSH, apresentam limitações porque seus níveis oscilam muito durante a transição menopausal. Um resultado normal, portanto, não exclui a perimenopausa.
Uma situação bem diferente ocorre antes dos 40 anos, quando alterações menstruais e sintomas podem indicar insuficiência ovariana prematura. Nessa circunstância, a investigação laboratorial assume papel importante e o diagnóstico deve ser bem estabelecido.
Por seu turno, o tratamento hormonal da menopausa continua sendo o mais eficaz para sintomas vasomotores, particularmente os fogachos, além de reduzir a perda óssea e o risco de fraturas. Entretanto, não deve ser prescrito automaticamente para todas as mulheres, pois essa decisão precisa considerar idade, tempo desde a menopausa, sintomas, fatores cardiovasculares, risco de trombose, histórico de câncer, preferências e qualidade de vida.
Um conceito importante é que a terapia hormonal não é sinônimo de uma única formulação. Assim, a escolha do estrogênio, da dose, da via de administração e do progestageno deve ser individualizada. Em mulheres com útero, o estrogênio sistêmico necessita de proteção endometrial com progestageno.
Nos últimos anos, a via transdérmica tem ganhado destaque quando existem fatores que aumentam o risco cardiovascular ou tromboembólico. Já mulheres com hipertensão controlada ou diabetes bem controlado não devem ser excluídas da terapia hormonal, pois a via transdérmica pode ser apropriada.
Outro ponto relevante é o risco cardiovascular. A terapia hormonal não deve ser utilizada com a finalidade primária de prevenir infarto, acidente vascular cerebral ou demência. A prevenção cardiovascular continua dependendo fundamentalmente do controle da pressão arterial, colesterol, glicemia, peso corporal, tabagismo, atividade física e alimentação.
Por seu turno, nas mulheres com sintomas geniturinários, como secura vaginal, ardor e desconforto nas relações sexuais, o estrogênio vaginal em dose baixa constitui importante alternativa, podendo ser utilizado isoladamente ou associado à terapia sistêmica
A diretriz europeia também chama atenção para os tratamentos não hormonais. Assim, terapia cognitivo-comportamental, atividade física e alguns medicamentos, incluindo determinados antidepressivos, gabapentina e antagonistas dos receptores de neurocinina, podem beneficiar mulheres que não desejam ou não podem utilizar hormônios.
Outro avanço é o de abandonar a ideia de que toda mulher precisa interromper a terapia hormonal ao completar 60 anos. Nesses termos, a idade, isoladamente, não deve determinar a suspensão do tratamento. A continuidade deve ser reavaliada periodicamente, considerando sintomas persistentes, benefícios, riscos e preferências da mulher.
Devemos ter cuidado especial com a chamada “terapia hormonal bioidêntica manipulada”, pois esta merece cautela. Nesse sentido, hormônios corporalmente idênticos aprovados e adequadamente estudados podem ser utilizados, mas formulações manipuladas sem controle regulatório adequado não apresentam as mesmas garantias de eficácia, segurança e padronização.
A testosterona também encontra espaço, mas com indicação muito mais específica, como o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres pós-menopausadas. Deve ser utilizada preferencialmente em formulações transdérmicas e em doses fisiológicas. Já os efeitos de longo prazo ainda necessitam de maior conhecimento.
Por fim, a grande mensagem da nova diretriz é que a menopausa deve ser tratada de maneira individualizada e integral, pois não se trata simplesmente de dar ou não dar hormônio. Trata-se, sim, de identificar sintomas, avaliar riscos, proteger ossos e sistema cardiovascular, cuidar da saúde sexual e geniturinária e preservar qualidade de vida. A menopausa é uma etapa fisiológica da vida, mas seus efeitos não precisam ser simplesmente suportados. Informação adequada, decisão compartilhada e acompanhamento médico permitem transformar essa fase em uma oportunidade de cuidado integral e de promoção da saúde para as próximas décadas.
*Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026