sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Lula entra em campo contra Neymar e pode estar escolhendo o adversário errado
27/02/2026

Enquanto Lula conta com aproximadamente 13 milhões de seguidores no Instagram, Neymar fala para um público de 233 milhões

O debate sobre a relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o jogador Neymar ultrapassa as quatro linhas do gramado e entra no campo minado da estratégia digital e da polarização nacional. Vamos tratar aqui de como falas presidenciais sobre a Seleção Brasileira – que à primeira vista parecem comentários despretensiosos de um torcedor – carregam um peso institucional capaz de gerar ruídos desnecessários e alimentar confrontos com ídolos que possuem exércitos de seguidores.

Esta semana, Lula caiu na tentação mais uma vez de criticar Neymar ao relatar uma conversa que teve com Carlo Ancelotti sobre o futuro da Seleção. Ao cravar que, sob sua ótica, nenhum jogador deveria ser convocado apenas pelo peso do nome se não estiver 100% fisicamente, o presidente disparou um dardo direto na direção do craque, que vive um longo calvário de lesões.

O “porquê” dessa insistência é claro: ao cobrar desempenho atlético, Lula tenta imprimir uma marca de rigor e meritocracia, mas acaba por personalizar a crítica em um atleta que é o símbolo máximo do alinhamento político oposto ao seu, transformando uma questão de fisiologia esportiva em um acerto de contas ideológico.

Essa postura de ditar normas para a convocação ignora que Neymar não é apenas um atleta em recuperação, mas uma potência de comunicação que rivaliza com o próprio Estado em termos de alcance direto. Os números evidenciam um abismo de influência: sozinho, Neymar ostenta cerca de 233 milhões de seguidores apenas no Instagram, uma cifra que supera a soma de todas as redes sociais dos 20 clubes da Série A do Brasileirão juntos.

A distância para o próprio presidente é colossal; enquanto Lula conta com aproximadamente 13 milhões de seguidores na plataforma, Neymar fala para um público mais de 17 vezes maior. É uma assimetria que transforma qualquer “cutucada” presidencial em um embate de Davi contra Golias, mas com os papéis de poder invertidos no mundo digital.

O risco tático dessa investida é acentuado pelo momento de vulnerabilidade do governo perante o eleitorado jovem. Pesquisas recentes apontam que a desaprovação de Lula entre eleitores de 16 a 34 anos já ultrapassa os 50%, chegando a picos de 64% em determinados levantamentos. Ao antagonizar um ícone pop dessa geração, o presidente flerta com o isolamento de um público que ele precisa reconquistar para reduzir sua rejeição.

Para esse jovem, que muitas vezes enxerga a política com cinismo, a fala de Lula não soa como zelo pela Seleção, mas como o incômodo de um líder de outra era tentando pautar o maior entretenimento do país.

Uma disputa que repercutiu na Europa

20 anos atrás foi com Ronaldo

Ao resgatar episódios como o questionamento sobre o peso de Ronaldo em 2006, percebe-se um padrão de improviso que nem sempre envelhece bem. Naquela ocasião, a resposta atravessada do Fenômeno (perguntou a Lula se era verdade que ele bebia cachaça, como diziam as más linguas…) mostrou que o prestígio da chuteira, no Brasil, muitas vezes peita o prestígio da faixa presidencial.

No cenário atual, o custo de um “gol contra” dessa natureza é potencializado pelas redes sociais, onde Neymar joga em casa e detém o controle da narrativa para uma audiência que reage com ferocidade a qualquer ataque ao seu ídolo, deixando o Planalto em uma posição de desvantagem em um campo que não aceita intervenções por decreto.

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