segunda-feira, 23 de março de 2026
Ivo Anacleto Norris da Silva
23/03/2026

Descanse em paz, Chuck Norris — ao menos na mitologia que criamos.

Perdoem-me a concessão. Dessas que o sujeito faz antes de dizer o que realmente pensa, como quem limpa a garganta antes do incômodo discurso: Chuck Norris morreu.

Há, sim, um certo glamour naquilo que se convencionou chamar de mediocridade. Mas não se enganem: ele não nasce do povo. Vem de cima — da crítica oficiosa, da elite que precisa, ao mesmo tempo, distinguir-se e sobreviver. O povo nunca precisou de glamour. Precisa de voz, de riso, de dor e de tempo. E com isso constrói — e destrói tudo.

Tomemos três figuras, não como pessoas, mas como estilos: Chuck Norris, Ivo Holanda e Anacleto Reinaldo. Poderiam ser outras. São muitas.

Chuck Norris foi transformado em mito por excesso — não por grandeza trágica, mas por exagero cômico. O homem que conta até o infinito três vezes. Não é o ator que importa, é o que fizeram dele: uma construção coletiva, quase medieval, como as lendas que cresciam à medida que eram contadas. Esse mito indestrutível não persegue o homem — revela o homem, que busca o absoluto como quem chama por Deus.

Ivo Holanda trabalha com o susto, esse elemento primitivo que antecede qualquer teoria estética. O riso que nasce da reação, não da reflexão. Antes de existir crítica, já havia gargalhada. A surpresa é uma espécie de milagre — breve, mas suficiente para suspender o mundo. As pegadinhas já são clássicas nas redes.

Anacleto Reinaldo abre o microfone e deixa o povo falar — e, ao fazer isso, comete o gesto mais perigoso da comunicação: não filtra. Ali não há curadoria, há confronto; não há discurso lapidado, há carne viva. A coragem, ali, não é virtude — é condição de existência da própria notícia.

E é nas redes sociais — esse território sem porteiro — que esses três estilos encontram sua forma mais curiosa: não são contemporâneos, são resgatados. São retirados do seu tempo e lançados em outro, como peças antigas que voltam a circular com nova força. Ali, onde o povo não precisa de licença crítica, tornam-se os mais vistos, repetidos e comentados. Multiplicam-se em memes, viram linguagem própria, alteram o modo de falar. Não são apenas lembrados — são recriados.

Esses três pontos formam um triângulo incômodo: o popular não pede licença. E é justamente aí que começa o problema. Chamaram de brega aquilo que o povo consagrou sem autorização; chamaram de cult aquilo que poucos podem alcançar — ou fingem alcançar. Mas esses nomes não são neutros. São cercas. O brega é o que escapa; o cult é o que se protege. E há um movimento curioso, quase irônico: quando o cult se populariza, perde o prestígio; quando o brega envelhece, ganha respeito — e vira cult. E, não raro, aquilo que parecia datado retorna com mais vigor do que quando nasceu — como se o tempo não o gastasse, mas o preparasse. O tempo, esse velho irônico, faz justiça sem pedir opinião.

Na moda, esse jogo atinge o paroxismo. O sujeito quer ser visto — mas não quer ser copiado. Quer reconhecimento público por algo que não deve se tornar público: é a popularidade do invisível, o aplauso do irrepetível. Veste-se para ser único diante de muitos — e termina igual a todos que tentam o mesmo.

Já na música, inventaram um nome curioso: MPB. Não para definir o popular, mas para selecioná-lo. Criou-se uma fronteira: de um lado, o popular legitimado; do outro, o popular espontâneo — como se a música do povo precisasse de autorização para ser chamada de música. E o mesmo se fez com a poesia: o repentista, que improvisa versos com a rapidez de um relâmpago, foi colocado numa prateleira lateral. Não é “poeta” — dizem — é “repentista”. Mas o que é isso senão o poeta em estado bruto? O verso nascendo sem papel, sem edição, sem proteção — mais antigo que qualquer academia, mais vivo que muito livro premiado. Caetano Veloso cantando Fernando Mendes — eis o atalho perfeito: o cult ajoelhando-se diante do popular.

No fundo, o que está em jogo não é qualidade, é controle. O povo legitima pelo uso; a elite legitima pelo discurso. Um canta, o outro explica — e, quase sempre, chega depois. E há ainda um ponto menos confessado: a crítica deseja duas coisas — reconhecimento público e dinheiro —, mas raramente os alcança pelos próprios meios. O resultado moderno é um desvio de rota: incapaz de competir com o gosto do povo, essa elite avança sobre o erário e se reorganiza como estética subsidiada, onde o aplauso é substituído pelo edital e o público, pelo parecer. Há, portanto, um equívoco de origem: não é o popular que busca o reconhecimento da crítica; é a crítica que, para não desaparecer, precisa correr atrás do popular. E quando o alcança, faz o que sempre fez: renomeia, classifica, domestica — transforma em conceito aquilo que nasceu como impulso.

Mas há algo que escapa — sempre escapa. Porque o popular não depende de permissão: ele não aguarda análise, nem se submete a critérios prévios. Ele acontece. E hoje acontece à vista de todos, em tempo real, nas redes — onde até o passado é convocado para falar no presente. E, quando acontece, arrasta consigo o gosto, a memória e o tempo.

O debate é antigo. Perde-se nos primórdios da história. Curiosamente, volta nestes instantes de dúvida sobre a hegemonia política no mundo. Já houve quem o percebesse com clareza. Will Durant, ao tratar da decadência cultural da Grécia, anotou: “Os poetas começaram a escrever para os poetas, e tornaram-se artificiais; os literatos começaram a escrever para os literatos, e tornaram-se maçantes.” E mais: escrever tornara-se profissão, criara partidos, e a apreciação do talento passara a depender menos da obra e mais da distância entre os grupos. Quando a arte deixa de falar ao povo e passa a falar a si mesma, não é refinamento — é sintoma. É o instante em que já não se cria com a mesma força e resta, como ele próprio disse, conservar, editar e expor o passado.

E talvez seja este o ponto mais delicado: quando uma civilização começa a premiar a conservação mais do que a criação, não está preservando a cultura — está embalsamando-a.

No fim, resta uma verdade simples, dessas que não gostam de salão: o povo cria, a elite comenta — e, muitas vezes, comenta tarde demais. Como se diz: os poetas são mortos para valerem epígrafes.

Os memes de Chuck Norris já não pertencem ao tempo — pertencem ao que resiste ao tempo. Os novos memes serão transcendentais. Em algum futuro distante, alguém discutirá sua origem como quem discute um mito fundador — e talvez nem se pergunte se ele existiu. Porque, nesse ponto, pouco importa. O homem passa. O símbolo fica. E é com símbolos que o povo escreve — sem pedir licença — a sua própria eternidade “altarizada”.

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