Acossado por adversários poderosos e desgastado politicamente, o Irã pode entrar em uma longa e sangrenta guerra civil

Junto com as bombas, vêm os nomes. Trump brada a“Operação Fúria Épica”. Seu par, Netanyahu, exorta o “Rugido do Leão”. Em ambos os casos, o alvo é o Irã. Nos estertores de fevereiro, a aliança israelense-americana trocou as palavras pela ação. Enquanto as diplomacias patinavam no tenso diálogo com o regime dos aiatolás, as forças armadas entraram em ação. Assim funciona a “diplomacia das canhoneiras”, a política externa da força, cuja única métrica é o poder.
Em diferentes regiões do país, cidades como Teerã, Isfaha e Kermanshah foram duramente atingidas. Além de instalações militares e estratégicas, dentre as quais aquelas relacionadas ao polêmico programa nuclear iraniano, houve uma nova rodada de eliminação de lideranças políticas, inclusive o aiatolá Khameni, o comandante-mor de um regime que agoniza, mas parece longe de se render.
A justificativa oficial para mais essa usurpação dasoberania de um antagonista político é bem conhecida: impedir avanços, neutralizar riscos e proteger aliados. Em uma retórica afinada durante a última visita de Netanyahu à Casa Branca, a sexta desde que Trump retornou ao poder, o ataque é exposto como absolutamente necessário, quase inevitável. Mais do que isso, ganha contornos dramáticos quando Trump resolve explicar que a ação também seria “pelo povo iraniano”; um gesto de coragem de sua administração, a coragem que teria faltado a outros presidentes, que “não tiveram ousadia” para agir.
O drama ganha ares de cinismo quando o presidente americano evoca um certo altruísmo. Depois de anos dizendo que os iranianos pedem ajuda externa, eis que finalmente alguém os ouviu. Não o próprio povo, comsuas vozes múltiplas e complexas, que, recentemente, ousou sair às ruas para se opor às graves mazelas do regime, sendo duramente reprimido pelas forças oficiais; mas a interpretação conveniente de um “herói” externo que decidiu agir por eles.
Do lado israelense, avançando em sua política de eliminação de adversários, já largamente posta em prática na Faixa de Gaza, Netanyahu deixou claro que o leão israelense não negocia – ele ruge, ataca e mata. O rugido é demonstração de força antes do confronto. É o aviso, oespetáculo, a construção simbólica de poder. O ataque é a força em movimento, a potência convertida em ato, capaz de materializar o pior pesadelo de seus oponentes: a aniquilação.
Todavia, mostrando que a dança dos poderosos está bem ensaiada, o “Rugido do Leão” também busca legitimar a violência, combinando força e benevolência. Como Trump, que exorta a própria coragem e abre a senda da insurreição interna, Netanyahu também conclamou os iranianos a “unir forças, derrubar o regime e garantir o futuro”.
Qual a perversidade implícita nos discursos que emanam de Washington e Kiryat? Trump e Netanyahu desejam ardentemente derrubar o regime dos aiatolás e implantar um regime pró-Ocidente. Esse desejo é compartilhado por muitos dos países do Oriente Médio e por uma parcela expressiva da própria população iraniana. No entanto, essa guerra também é um projeto eleitoral: ambos enfrentam eleições no segundo semestre do ano. Uma guerra sempre aumenta o ibope, desde que não sacrifique as vidas dos seus próprios soldados. Esse ônus tem que ser transferido para a população iraniana: só eles podem morrer.
Muito além das mortes de dezenas de meninas em uma escola em Minab, para além dos mais de 500 civis já vitimados pelos ataques, Trump e Netanyahu estimulam o levante da oposição iraniana, apoiando a sedição das forças que sustentam o regime, mesmo que ao custo de uma longa guerra civil. Pouco importa. São os iranianos que, apoiados pela coalização israelense-americana,devem entregar suas vidas pelo fim do regime dos aiatolás: um regime já bastante enfraquecido, bombardeado por adversários poderosos, questionado internamente e politicamente isolado em sua região, mas que poderá derramar muito sangue para se reorganizar esobreviver.