Uma melancia não se come sozinho. Nem laranjas.
Ingressei no curso de Economia, na UFPB, em 1981.
Mesmo como estudante de escola pública, eu recebia crédito educativo, para o que o programa chamava de manutenção. Pois é, né? A história é mais antiga do que parece.
Essa grana me servia para a alimentação no restaurante universitário — com preços subsidiados, bem abaixo do mercado — e para comprar livros e material escolar numa livraria mantida pela universidade, cujos preços também eram subsidiados (a história, por tradição, é ainda mais antiga).
Foi nesse ano que comprei o livro Os Credores do Mundo, de Sampson. Adiantei pesquisas sobre o assunto e cheguei à hawala, uma espécie de transferência (e guarda) de recursos baseada na confiança. O sistema ainda é utilizado por grupos terroristas. Uma das dificuldades de rastrear dinheiro desses grupos, especialmente no mundo árabe, é justamente essa. Dizem que a origem está na Índia e que se propagou pelo mundo árabe, chegando até o Ocidente. Daí, sugere-se, a criação do instituto do aval, como o conhecemos.
Consiste num sistema de confiança (ou cumplicidade) recíproca, obediente à propriedade biunívoca da matemática. Eu lhe dou um “dinheiro” para você guardar, e você o tem como seu, sabendo que é meu. Ou eu preciso mandar dinheiro para alguém, em qualquer lugar do mundo, e uma pessoa do mesmo grupo a que pertencemos (chamemos de gangue), localizada nas proximidades do destinatário, se encarrega de entregar, segundo um código. Antigamente, o portador levava apenas o código. Asseguram que muitos códigos foram escritos na cabeça raspada de escravos.
Pronto.
A hawala era uma forma de confiança para desviar ladrões — inclusive oficiais — que terminou beneficiando ladrões oficiais. O aval foi uma consequência lateral.
O mundo da corrupção é incrível. O Master é uma prova cabal disso. Sugere que a tecnologia avançou tanto que conseguiu criar um banco para si mesma. É o disfarce perfeito. Até parece a ficha telefônica feita de chocolate, no inverno europeu.
Quando vi a lista de conselheiros do Master, me espantei.
O cara — o CEO — não é apenas um pródigo bon vivant; é um mestre da captura.
Ele me fez lembrar lances de corrupção que conheci, até como piadas, ao longo da vida.
Por exemplo.
A história do cara imaturo que foi encarregado de receber uma propina e parou para contar. Era da pedagogia cotidiana que ninguém recebe dinheiro sem contar, especialmente quando tem que repassar para outro. Sob olhares apressados e temerosos, alguém perguntou se ele ia contar. Ele respondeu que sim. E o pessoal saiu da sala. Ele percebeu que tinha feito uma besteira quando foi convidado a sair.
Outra é uma história complementar à anterior. Um cara esperto, que se encarregava de transportar propinas, notou, com o tempo, que ninguém contava — nem ao receber, nem ao entregar. Levando uma propina para um velho político amigo, aproveitou para retirar uma parte. Quando foi entregar, o destinatário recebeu e sentiu, pelo peso, que estava errado. Devolveu ao portador, mandando “interar”. É que ele sabia o peso exato do quanto deveria receber.
O esperto aprendeu que, no mundo das propinas, dinheiro não é moeda corrente: é volume e massa. Dinheiro é contado por quem precisa dele e o recebe como contraprestação de trabalho suado.
A corrupção brasileira, imagino, criou o laranja (o antigo testa-de-ferro). Para mim — é uma dedução minha — o termo tem a ver com o significado dúbio da palavra: ora uma cor, ora uma fruta (quem assistiu ao filme O Casamento Grego vai lembrar). Quem é laranja pode parecer uma coisa à vista, mas, a prazo, é outra.
O cara do Master não é um laranja (fruta), pelo menos nos moldes tradicionais — mesmo que tenha a cor. Mas que parece, parece.
Ah! Não pensem que ele tem nudes de autoridades. Não! Ele não tem. Nem nudes nem lei. Ele tem um tal Código de Conduta, de obediência doméstica — e até íntima. Mas nudes, ele não tem. Esses arquivos XXX servem para outras desculpas.
O que ele tem, tranquilamente, é proteção, cumplicidade e sigilo — inclusive proteção legal.
Com as vênias de estilo, ressalvo, no título, a influência óbvia — quase automática — de Hesse.
O mestre dos jogos, ali, é uma vitória sobre si.
Aqui, trata-se de uma vitória sobre os que ainda creem nisso tudo: no que veem, no que escutam, no que lhes é dado a acreditar.
Quanto às narrativas que lhe são impostas — inclusive na sua timeline —, elas nada dizem sobre o que você está realmente lendo ou vendo. O que falta nos hospitais, nas escolas, nas ruas, nos transportes e na segurança pública custeia a corrupção que o seu voto mantém.