Nenhuma alma é indigna de um velório, mas nem todo velório é digno.
O delegado de Piancó, homem prudente e já um tanto fatigado da natureza humana, cansara-se de atender queixas contra um certo grupo de jovens, cuja fama alcoólica rivalizava apenas com a disposição para rixas nas noites de sábado.
Depois de muitas ocorrências, resolveu aplicar um remédio simples e preventivo: recolheu-os todos à cadeia numa quinta-feira, sem que houvesse contra eles acusação formal, mas com a convicção íntima de que a prudência, às vezes, precede o crime.
Os rapazes, presos sem entender a razão do castigo antecipado, aceitaram a situação com espírito filosófico. Pediram apenas três coisas: a comida do restaurante de Dino, umas caixas de baralho e que não faltasse a velha cachaça Pitú, companheira fiel das reflexões profundas.
O delegado, que não era homem de negar pequenas concessões quando a ordem pública estava garantida, deferiu o pedido. Feito isso, preparou-se para gozar dois dias de descanso numa chácara do amigo Calula, em Itaporanga, onde esperava encontrar silêncio, galinhas e alguma paz administrativa.
Já se dispunha a sair quando chegou a notícia da morte de um velho agiota da cidade, sujeito ranzinza e pouco inclinado às amizades desinteressadas. Enterros e velórios costumam atrair apenas os interesses de herdeiros não deserdados.
Comentava-se nas ruas, com grande possibilidade de certeza, que talvez não houvesse alma bastante caridosa para conduzir o corpo ao campo santo; duvidava-se, aliás, que o próprio defunto, vivo, tivesse trazido consigo uma no nascimento.
O delegado, homem prático, viu ali um expediente moralmente útil. Chamou os detentos arruaceiros e propôs-lhes um acordo: se se dispusessem a carregar o morto até o cemitério, receberiam a liberdade.
Os rapazes, que tinham o coração leve e a sede constante, aceitaram de bom grado. Apenas impuseram uma cláusula: a condução do corpo se faria em procissão, com paradas regulares em todos os bares do trajeto, sendo o trajeto escolhido por eles.
Não havendo melhor solução administrativa para o problema funéreo da cidade, o delegado concordou.
A procissão partiu da igreja.
No primeiro bar, de Pedro Freire, houve um brinde discreto.
No segundo, de Bené, um mais entusiasmado.
No terceiro, de Fandinga, já não se saberia dizer com segurança quem acompanhava quem; apenas se dizia, com certa convicção local, que até o defunto bebera.
Quando chegaram ao cemitério, o coveiro, seu Enistain, funcionário zeloso e escravo das formalidades matemáticas e físicas, perguntou pela nota fiscal do defunto.
Os rapazes entreolharam-se. Não tinham tal documento.
Voltaram então pelo mesmo caminho, repetindo o itinerário dos bares — por motivos que a memória humana prefere atribuir ao acaso.
Na igreja, já consumindo o vinho da oblação, foram advertidos pelo sacristão, que ainda dobrava o sino com certo cansaço litúrgico, de que defuntos não possuem nota fiscal, mas sim atestado de óbito.
Esclarecida a dúvida, retomaram a procissão.
Mas já era madrugada, e o coveiro, homem de hábitos regulares, havia encerrado o expediente.
Prometido o enterro para a segunda-feira, resolveram adiar a providência final.
E, para que o defunto não sofresse com o odor da espera, tomaram a providência prática e antiga de salgá-lo — para não o perderem.
Fecharam então o caixão, cobrindo-o com um pano verde — desses que facilitam, à beira da cova, traçar, cortar e distribuir as cartas.
Convém dizer, antes que algum leitor mais severo se escandalize, que esta história não pretende ensinar moral alguma. Os rapazes têm nomes conhecidos na cidade. O grupo era de cinco: quatro jogadores e um peru.
Se ensina alguma coisa, será apenas isto: que há homens que em vida não encontram quem os carregue, mas em morte conseguem servir de companhia — ainda que seja por meio de uma boa dose de cachaça e algumas caixas de baralho.
Há também os desmerecidos da graça do nascimento, que passam a vida inteira fazendo aquilo que a morte se cansa de lhes avisar.
