quarta-feira, 25 de março de 2026
Google põe a IA no centro da compra e vende futuro sem pudor
24/03/2026

Eu estava aqui, entre uma aba aberta, três neuroses digitais e aquele cansaço fino de quem já foi obrigada a ouvir a palavra inovação mais vezes do que deveria, quando o Google resolveu subir ao palco para cravar o óbvio com pompa. A inteligência artificial, segundo a empresa, deixou de ser coadjuvante simpática e virou motor de decisão de compra, reorganização de marca e ambição de negócio. Traduzindo da língua corporativa para o português da vida real, a internet quer parar de só mostrar opção e passar a influenciar escolha com método.

No Think with Google 2026, realizado em São Paulo, o Google Brasil apresentou o conceito Re-Think e colocou a IA como eixo da nova relação entre marcas e consumidores. Fábio Coelho, presidente da empresa no país, defendeu que a tecnologia atravessou a fase de ferramenta e entrou na de infraestrutura essencial, com impacto no modo como as pessoas acessam conhecimento, tomam decisões e consomem. Entre os dados levados ao evento, o Google destacou que 87% dos usuários de Google e YouTube no Brasil estão abertos a experimentar novas marcas e citou pesquisa segundo a qual usuários de AI Overviews e Modo IA se sentem mais seguros e decidem mais rápido.

No bastidor digital, o que está sendo vendido é uma mudança de comportamento com embalagem de inevitabilidade. O consumidor pesquisa, compara, vê vídeo, lê resposta pronta, recebe sugestão mais mastigada e chega à compra já meio convencido de que escolheu sozinho. É o velho teatro da autonomia na era do algoritmo bem penteado. A pessoa jura que foi pela própria cabeça, mas a própria cabeça já entrou na sala depois de passar pela triagem da plataforma.

A parte mais deliciosa dessa história é ver o mercado publicitário fingindo surpresa diante de uma dinâmica que ele próprio passou anos desejando. Agora que a IA consegue captar intenção com mais precisão, o anúncio ganha pose de resposta inteligente e a marca começa a sonhar com uma conversa quase íntima com o público. Tem um lado fascinante, claro. Tem outro que parece jantar de negócios com clima de ficção científica, em que todo mundo sorri enquanto o consumidor vira personagem de planilha emocional.

O Google também levou ao evento o Gemini como peça-chave dessa engrenagem e apresentou trilhas voltadas para marca, jornada e mensuração. Em bom português, a companhia quer convencer o mercado de que não basta mais aparecer, é preciso ser encontrado de um jeito tecnicamente visível e emocionalmente relevante. Olha a audácia. A publicidade agora quer ser útil, sedutora, precisa e ainda parecer espontânea. Um milagre só comparável a influencer dizendo que acordou linda sem filtro.

No fim, o que o Google fez foi assumir no microfone uma verdade que muita gente já vinha sentindo no clique. A compra está cada vez menos impulsiva no sentido antigo e cada vez mais guiada por um empurrão sofisticado, cheio de dado, contexto e conveniência. O consumidor continua achando que manda muito, e eu acho fofo. Em 2026, quem entra no carrinho antes, muitas vezes, é a inteligência artificial.

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