Eu estava tomando um café no Mercato del Levante, em Bari, quando uma amiga jornalista de São Paulo me mandou a captura de tela que já circula nos grupos de política e entretenimento do Brasil inteiro: Jim Caviezel, o mesmo que interpretou Jesus em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, aparece maquiado e caracterizado como Jair Bolsonaro nas imagens do set de “Dark Horse”, o longa que promete virar o maior debate cinematográfico do ano no país.
O filme está em pós-produção e já tem nome, sinopse e elenco registrados no IMDb, o principal banco de dados de cinema do mundo, além de cobertura extensa no Deadline, veículo de referência da indústria de Hollywood, e manchetes na CNN e no Yahoo. “Dark Horse” é dirigido por Cyrus Nowrasteh e tem roteiro assinado por Mário Frias, o ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro. A produção foi inteiramente filmada em inglês, com locações no Brasil e no México, e é apresentada como um thriller político centrado na campanha presidencial de 2018 e na facada em Juiz de Fora.

O lançamento está previsto para setembro deste ano. O projeto nasceu às escondidas: a produção confiscou celulares no set, montou esquema de segurança contra vazamentos e manteve Caviezel no Brasil por três meses. O diretor Nowrasteh descreveu o filme ao Deadline como “um thriller político sobre poder, mídia e fé sob pressão”. Quem produz é Eduardo Verástegui, o mesmo nome por trás de “Sound of Freedom”, que arrecadou 184 milhões de dólares nos Estados Unidos em 2023 e teve o Brasil como um de seus maiores mercados internacionais. A conta não é por acaso.
A escolha de Caviezel faz sentido dentro da lógica do projeto. O ator tem histórico de sucessos comerciais fora do circuito tradicional de Hollywood, com “A Paixão de Cristo” e “Sound of Freedom” como referências de bilheteria expressiva junto ao público cristão e conservador. O lançamento de “Dark Horse” em 2026 coincide com a corrida presidencial brasileira, com Flávio Bolsonaro já confirmado como candidato pelo próprio pai, de dentro da cadeia. Um filme de tom heroico sobre o fundador da dinastia, lançado no ano eleitoral, em inglês, com presença garantida nas plataformas internacionais: o calendário dessa produção é tão calculado quanto o roteiro.
Da cadeia onde cumpre 27 anos de pena por tentativa de golpe, Jair Bolsonaro sabe que uma coisa a política brasileira ainda não havia produzido: um blockbuster sobre si mesmo. “Dark Horse” pode não convencer os já decididos, mas vai existir em telas do mundo inteiro, em inglês, com um rosto americano reconhecível no papel principal. Para quem está preso no Brasil, isso equivale a um palanque no exterior que nenhum comício conseguiria montar.