
As derrotas de ídolos e dirigentes do futebol na eleição de domingo (4) expõem o limite de uma aposta recorrente dos partidos: transformar reconhecimento público em votos. Edmundo, Luis Fabiano, Marcelinho Carioca e Vanderlei Luxemburgo chegaram à disputa com nomes conhecidos por milhões de brasileiros. Nenhum deles conseguiu se eleger. O resultado reforça uma lição que o entusiasmo das arquibancadas às vezes esconde: admirar uma trajetória esportiva não significa entregar ao ídolo uma procuração política.
Os números dimensionam essa distância. Luis Fabiano recebeu 9.613 votos para deputado federal por São Paulo. Edmundo ficou na casa dos 35,7 mil no Rio de Janeiro. Marcelinho Carioca obteve 2.494 votos para deputado distrital. Luxemburgo, vencedor de cinco Campeonatos Brasileiros como treinador, terminou em sétimo na disputa pelo Senado no Tocantins, com cerca de 68 mil votos. Finazzi, Dinei, Donizete Pantera e o ex-goleiro Sérgio também ficaram pelo caminho.
O revés alcançou os gabinetes dos clubes. Eduardo Bandeira de Mello, ex-presidente do Flamengo, recebeu 37.535 votos e não renovou o mandato de deputado federal. Marcos Braz, ex-vice-presidente de futebol rubro-negro e ex-vereador do Rio, somou 18.305 votos e também ficou fora da Câmara. Nos dois casos, a projeção proporcionada pelo Flamengo não assegurou a eleição. Braz, inclusive, já havia fracassado na tentativa de renovar o mandato municipal em 2024.
Seria precipitado atribuir todas essas derrotas a uma mesma causa. Partido, campanha, presença regional e concorrência pesam de maneiras diferentes. Mas o conjunto permite uma leitura: a fama pode facilitar a apresentação de um candidato, sem garantir que ele convença o eleitor. Uma torcida numerosa tampouco funciona como um bloco eleitoral, com preferência política uniforme.
Cases de sucesso
Há trajetórias que mostram como essa passagem pode produzir uma carreira duradoura. Romário é o exemplo mais conhecido. Eleito deputado federal em 2010, chegou ao Senado em 2014, foi reeleito em 2022 e tem mandato até 2031. Sua atuação ganhou uma referência concreta fora dos gramados: foi relator, no Senado, da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, aprovada em 2015. É um caso em que a identidade parlamentar passou a incluir uma pauta própria, além da memória dos gols.
Outros exemplos ajudam a completar esse quadro. O ex-goleiro Danrlei conquistou quatro mandatos consecutivos de deputado federal pelo Rio Grande do Sul, nas eleições de 2010 a 2022, e ocupou a vice-presidência da Comissão do Esporte. Roberto Dinamite, ídolo do Vasco, foi eleito deputado estadual no Rio por cinco mandatos consecutivos. A longevidade comprova continuidade eleitoral, embora, por si só, não seja uma medida da qualidade de um parlamentar.
O contraste com os derrotados de 2026 está justamente aí. O futebol oferece visibilidade, lembranças afetivas e acesso ao público. Construir representação política exige transformar essas vantagens em vínculos, propostas e confiança. O torcedor pode guardar para sempre a gratidão por um gol e, ainda assim, escolher outro nome na urna.