
O futebol brasileiro voltou a esbarrar esses dias em um tema desconfortável e cada vez mais presente: o etarismo. A recente demissão de Tite do Cruzeiro, aos 64 anos, reacendeu um debate que costuma aparecer sempre que um treinador veterano perde alguns jogos. Para parte da imprensa e da torcida mineira, o problema não é simplesmente o resultado ruim. O problema passa a ser a idade.
O que chama atenção é a narrativa. Em vez de se discutir apenas desempenho, fala-se rapidamente em “técnico ultrapassado”, “futebol antigo”, “cabeça que não acompanha mais o jogo”.
No Brasil, essa lógica atinge praticamente todos os treinadores veteranos. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, é o técnico mais vitorioso da história do Campeonato Brasileiro e, hoje, com 73 anos, está fora do mercado, como se o conhecimento acumulado ao longo de décadas tivesse prazo de validade.
Em contrapartida, Carlo Ancelotti tem 66 anos e dirige a seleção brasileira cercado de respeito. Se fosse brasileiro, possivelmente seria considerado “velho demais para acompanhar o futebol moderno”.
Aqui no Brasil, o futebol passou a se vender como um território dominado por conceitos novos, intensidade física e linguagem tática sofisticada. Quando um treinador veterano perde um jogo, a crítica raramente se limita à estratégia usada. O diagnóstico costuma ser outro: ele “não se atualizou”.
Além disso, tem a rotina brutal do futebol brasileiro. Diferentemente de outras atividades de liderança, o técnico vive sob uma pressão diária quase física: viagens constantes, calendário apertado, treinos intensos e 90 minutos de tensão à beira do campo a cada três dias.
Por outro lado, a política internacional vive uma espécie de gerontocracia. Líderes com idade avançada ocupam posições centrais de poder. Lula e Donald Trump, ambos na casa dos 80 anos, são exemplos claros dessa realidade. Ninguém espera deles vigor físico juvenil; espera-se capacidade de decisão, memória política e leitura estratégica do mundo.
No futebol brasileiro, entretanto, a lógica parece invertida. A experiência vira suspeita. O passado vencedor passa a ser tratado como lembrança distante. Talvez seja a hora de o futebol brasileiro encarar essa contradição com mais maturidade.
Porque inteligência tática não envelhece. Experiência não expira. E, se a história recente mostra alguma coisa, é que a idade de um treinador raramente explica – sozinha – as vitórias ou as derrotas dentro de campo.