quinta-feira, 12 de março de 2026
Estudo “Velhices Periféricas” aponta descompasso do envelhecimento das classes C, D e E no Brasil
11/03/2026

O avanço do envelhecimento populacional no Brasil tem sido acompanhado pelo aprofundamento das desigualdades. O estudo Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar, conduzido pelo data8, aponta que a transição demográfica no país tem produzido uma longevidade assimétrica: brasileiros das classes C, D e E vivem mais, porém envelhecem com menos saúde, menor autonomia financeira e baixa proteção social. Integrante da série Brasil Prateado – dedicada a investigar as transformações demográficas associadas à longevidade e aos seus impactos sobre economia, mercado de trabalho, consumo, saúde e comportamento –, o levantamento combina dados secundários e primários, análises quantitativas (com mais de 1.800 entrevistados das classes C e D) e qualitativas, além de painéis longitudinais e 12 entrevistas em profundidade realizadas em territórios periféricos da Grande São Paulo.

O estudo propõe uma leitura pouco explorada da longevidade no Brasil a partir da identificação de quatro tempos: o tempo de vida (lifespan), o tempo saudável (healthspan), o tempo de trabalho (workspan) e o tempo de autonomia financeira (moneyspan). O desalinhamento entre as dimensões ajuda a explicar as desigualdades do envelhecimento periférico e revela por que o aumento da expectativa de vida não se traduz, necessariamente, em mais saúde, segurança econômica e proteção social.

 No estudo, o termo periférico não classifica somente os moradores de favelas e comunidades – abarca, também, cidadãos que vivem nas periferias geográficas, econômicas e simbólicas do país. “A periferia é entendida, na análise, como uma condição social, marcada por menor acesso a serviços e oportunidades; menor proteção social; e maior exposição a riscos ao longo da vida do indivíduo. No Brasil, ninguém envelhece do mesmo modo, e essas diferenças socioeconômicas determinam o direito (ou não) à longevidade”, aponta Adriana de Queiroz, uma das coordenadoras do levantamento. 

Na visão de Cléa Klouri, uma das coordenadoras do estudo, a análise não traça um retrato de carência, mas de centralidade invisível. “São essas populações que mantêm redes familiares funcionando, sustentam múltiplas gerações, permanecem mais tempo no mercado de trabalho e fazem o dinheiro circular, mesmo sem conseguir transformá-lo em proteção ou patrimônio. Ainda assim, envelhecem com menos segurança financeira, menos acesso à saúde preventiva e menos reconhecimento social. A velhice periférica evidencia os principais descompassos da longevidade brasileira: vive-se mais, mas não necessariamente se vive melhor”, aponta.

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