sexta-feira, 27 de março de 2026
Esgoto a céus abertos
27/03/2026

O corruptio, qui ex miseria vivunt, te salutant.

Rota, quase despida, uma mulher baixou-se e bebeu da lama de um esgoto que se forma, há anos, a céu aberto, na calçada do mercado.

Todos que passavam, pasmados, enojavam-se. Uns reclamavam. Outros repudiavam e diziam:

— É um esgoto. Isso é lama. A senhora vai adoecer.

Na calma de seus anos e experiências vividas, ela respondeu:

— Vocês respiram, bebem, comem e estão sob o jugo dos esgotos podres em que se transformaram as instituições nacionais… e ainda querem dar-me conselhos de saúde!?

Maior foi o silêncio quando um carro de luxo, que passava, jogou lama em todos.

Um garoto, que carregava a feira de uma soçaite, limpou levemente os produtos do balaio, ao consentimento dela, e levou tudo ao carro.

— Há mais pedagogia perniciosa nas decisões institucionais do que ordem à obediência — disse um doutor, agora de roupa enlameada.

Alguém pediu uma cachaça e tirou com a dose o gosto da podridão, dizendo:

— Estabeleceu-se uma cultura de sobrevivência para ladrões e corruptos. No caos em que vivemos, nem o óbvio se propaga. É o escárnio.

O carro voltou à mesma cena, e o motorista, ao abrir o vidro, gritou, antes de partir em alta velocidade:

— Esta mulher tem mais saúde, coragem e conhecimento do que todos vocês. Deixem-na na farra que lhe é possível nesta imoralidade e podridão.

Ninguém respondeu. A mulher saiu às gargalhadas.

Na feira, passaram panos nas roupas, nos corpos, nos produtos de consumo — e na vida.

Também ninguém levantou o idoso, aposentado, que escorregara na lama, junto com um menor, aparentemente seu neto. Eles levavam muito pouco em seus pacotes — e iam em direção à farmácia em frente. Pareciam, ambos, dependentes da previdência que pagam à sobrevida. 

No mercado, voltaram, aos poucos, os comentários sobre empréstimos e roubos nas contas bancárias. Mas tudo dentro da normalidade. Resmungavam com mais ênfasedos centavos cobrados pelo garoto que levava a feira e pelo flanelinha que fingia guardar o carro.

Os mais sérios repudiavam os craqueados na rua, como se eles não fossem reflexos especulares do próprio torpor social em que os habitués da cachaça viviam.

Parando o trânsito na rua em frente, já ao final da tarde, a mulher, enlameada, dizendo-se a República, discursou sob a sinfonia do buzinaço em choro livre:

— Uma República não guarda — antes repudia — segredos; é, como dizia o poeta, “tão cheia de pudor que vive nua”. Portanto, não há quebra de sigilos. No desempenho de funções republicanas (cargos, mandatosou contratos públicos), ninguém dispõe das garantias individuais respeitantes à incolumidade. Quem quer intimidade não é público. Se uma República é acessibilidade e disponibilidade de poder, o agente públicoe as suas variações contratuais ou autorizações são a própria personificação da República.

Já completamente nua, exibindo um corpo todo cicatrizado, ela regia os carros, gritando em disputa com o barulho:

— Há mais moral na minha nudez do que honestidade em toda a República.

E saiu conduzindo o trânsito à sua maneira — até a rua da praia – acompanhada dos craqueados.

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