quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Escritores dos canaviais
31/01/2026

         A região do Brejo de massapê, elevações de terra e vento silencioso, e com a imensidão das várzeas expondo seus canaviais margeando o Rio Paraíba, foram descritas em belas páginas da literatura brasileira.

         O historiador Humberto Mello ressaltou que do canavial brotou a literatura que traz a alma do povo, apesar da seca também estar presente em páginas antológicas. Com relação às artes, as várzeas do Paraíba e do Brejo se destacam pela intelectualidade de seus filhos.

         Toda a beirada do Rio Paraíba e toda a região do Brejo, espremida entre serras e aspergida o ano todo pelo orvalho da madruga, são formadas por paisagens encantadoras, com seus engenhos e casa-grande que mesmo não tendo a imponência daqueles existentes em Pernambuco, produziam o melhor açúcar que conquistou o paladar dos holandeses, como ressaltou Horácio de Almeida.

         Os engenhos e as usinas da Paraíba inspiraram a criatividade de quatro escritores. Do Engenho Pau D’arco, em Sapé, veio Augusto dos Anjos com sua magistral poesia; no Engenho Corredor, em Pilar, brotou José Lins do Rego que arrancou da terra páginas que engrandecem a literatura universal, e subindo a serra, no Engenho Olho D’água, no município de Areia, foi gerado José Américo de Almeida, romancista que lançou páginas marcantes para a história das letras, e, finalmente, nos arredores das serras, do pequeno Engenho Vitória, em Alagoa Nova, saiu Gonzaga Rodrigues, o menino da bagaceira que produziu belas crônicas e escreveu relato profundamente humano no “Retrato de Memória”, que deveria figurar em qualquer lista de obra-prima do gênero.

         Da pena destes escritores saíram páginas majestosas, de beleza estética inconfundível. Expondo a motriz do povo, seus anseios e sua vida, as obras de cada um refletem a história econômica, social e política da Paraíba em épocas diferentes. 

         Se José Lins, José Américo e Augusto dos Anjos protagonizaram a arte da palavra com majestoso destaque, bem lembrado pelo professor Humberto Mello, Gonzaga Rodrigues carrega a sina de ter ficado na Paraíba quando a moda era debandar para o Rio de Janeiro ou São Paulo, onde poderia conquistar as paisagens onde pousaram José Lins, José Américo e Augusto. 

O pequeno “Retrato de Memória” é um livro que coloca o autor num patamar elevado no espólio literário inspirado nos canaviais.

         Sua crônica ocupa posição de relevância, sendo da Paraíba porque não quis ser do Brasil, atingindo o píncaro com “Retrato de Memória”. É texto definitivo de um escritor que encontrou seu caminho. O livro é uma confissão, o libelo de muitas vidas. Um poema em prosa de boa qualidade, feito com emoção e paixão.

         Fico a imaginar se depois da literatura destes mestres da palavra, temos espaços para escrever sobre a vida dos velhos engenhos, as paixões do povo de nossa terra. Sempre surgem os temas. Cada um tem seu tempo para sentir, observar e descrever.

         Dos canaviais ainda poderão surgir uma nova página para a literatura, mesmo que demore. Sabemos que cada época tem suas histórias. Dos canaviais e das caatingas é possível sair muitas outras narrações.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).