quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
Entre o afeto e a tradição: o que significa enterrar pets em jazigos humanos?
18/02/2026

Começou a tramitar na Câmara Municipal de João Pessoa projeto de lei que pretende permitir o enterro de animais de estimação em jazigos destinados a humanos. A proposta, que para alguns soa como gesto de amor, toca uma questão muito mais profunda: o sentido cultural e espiritual do sepultamento humano.
Desde as civilizações antigas, enterrar seus mortos sempre foi mais do que um ato sanitário. É rito, memória e identidade. O sepultamento distingue o ser humano como portador de biografia, consciência e transcendência. No Brasil, fortemente marcado pela tradição cristã, o cemitério é espaço sagrado, consagrado à memória de pessoas — não apenas corpos, mas histórias, gerações, linhagens.
O jazigo familiar guarda sobrenomes, datas, vínculos de sangue. Ali repousa a narrativa de uma família. Permitir que animais sejam sepultados no mesmo espaço pode representar, para muitos, uma ruptura simbólica relevante. Não se trata de negar o afeto pelos pets — que é legítimo, sincero e cada vez mais intenso —, mas de preservar a distinção cultural entre humano e animal.
A sociedade contemporânea elevou os animais de estimação à condição de membros afetivos da família. Há cemitérios específicos para pets, rituais próprios, memoriais personalizados. Isso demonstra que o luto pelos animais já possui reconhecimento social. Contudo, equiparar o espaço funerário humano ao animal pode ser percebido como diluição de categorias simbólicas construídas ao longo de milênios.
O debate não deve ser tratado com sarcasmo nem com radicalismo. É uma discussão civilizatória. Onde enterramos nossos mortos revela como entendemos a própria condição humana. A tradição religiosa cristã sustenta que o corpo humano possui dignidade singular. Mesmo numa perspectiva laica, a cultura sempre distinguiu o sepultamento humano como expressão de respeito à pessoa.
A pergunta que João Pessoa precisa responder é simples e profunda: ampliar direitos simbólicos aos animais fortalece nossa humanidade ou enfraquece nossas referências culturais?
Entre o afeto e a tradição, o equilíbrio talvez esteja em reconhecer o valor dos animais sem apagar aquilo que, historicamente, distingue o humano. Porque, no fim das contas, o modo como tratamos nossos mortos revela o modo como entendemos a vida.

canal whatsapp banner

Compartilhe: