sábado, 21 de fevereiro de 2026
Empresários ainda subestimam os riscos da Justiça do Trabalho
20/02/2026

Alta litigiosidade trabalhista expõe fragilidades na gestão de pessoas e pressiona o caixa das empresas brasileiras

O Brasil segue entre os países com maior volume de ações trabalhistas no mundo. Dados do Conselho Nacional de Justiça indicam que mais de 3 milhões de novos processos ingressam anualmente na Justiça do Trabalho, movimento que voltou a ganhar força após a pandemia. Em fevereiro de 2026, o cenário reforça um alerta ao empresariado: práticas consideradas rotineiras continuam ampliando riscos jurídicos, financeiros e reputacionais para as empresas.

Mayra Saitta, advogada e empresária fundadora do Grupo Saitta, hub de soluções empresariais especializado em contabilidade, direito empresarial e trabalhista, gestão tributária e apoio à tomada de decisão, avalia que parte relevante desse passivo nasce da falsa sensação de controle. “Muitos empresários acreditam que cumprir o básico da CLT é suficiente, mas ignoram detalhes operacionais que são decisivos em uma ação trabalhista, como registros de jornada frágeis, enquadramentos inadequados de cargos e contratos genéricos”, afirma.

O impacto desses processos vai além das condenações judiciais. Estudos da Fundação Getulio Vargas mostram que custos indiretos de disputas trabalhistas, como honorários, tempo da liderança envolvida e provisões contábeis, podem comprometer até 4% do faturamento anual de pequenas e médias empresas. 

A especialista ressalta que a prevenção passou a ser uma estratégia de gestão. “A Justiça do Trabalho analisa a realidade da relação e não apenas o que está formalizado. Quando a operação não sustenta o contrato, o risco de condenação aumenta de forma significativa”, diz.

Esse descompasso costuma surgir em fases de crescimento acelerado, quando a empresa amplia o quadro de funcionários sem estruturar processos de controle e documentação. A informalidade, segundo ela, tende a aparecer apenas quando o conflito já está instalado. “É comum o empresário perceber o problema somente ao receber uma notificação judicial. A partir desse momento, o custo deixa de ser evitável”, observa.

Diante desse cenário, especialistas defendem uma atuação preventiva, integrada à rotina da empresa, conectando jurídico, contabilidade e gestão de pessoas. “Não se trata de engessar o negócio, mas de criar critérios claros, rotinas auditáveis e decisões alinhadas à legislação e à prática do dia a dia”, pontua.

A especialista aponta cinco cuidados essenciais para reduzir riscos trabalhistas de forma contínua e estruturada

1- Onde os riscos costumam surgir

Antes de pensar em defesa, é fundamental mapear vulnerabilidades recorrentes. Jornadas mal registradas, acúmulo de funções não formalizado e cargos de confiança sem respaldo legal estão entre as principais origens de passivo. “São falhas silenciosas, que se acumulam ao longo do tempo”, afirma.

2- Contratos alinhados à realidade da função

Modelos padronizados e desatualizados não acompanham a dinâmica do negócio. A recomendação é revisar periodicamente funções, metas, formas de remuneração variável e regimes de trabalho. “O contrato precisa refletir o cotidiano do colaborador, não apenas um modelo genérico”, explica.

3- Controle de jornada com provas consistentes

Mesmo em regimes flexíveis, a empresa precisa adotar mecanismos confiáveis de controle. Registros informais ou frágeis costumam ser desconsiderados em juízo. “Na ausência de prova robusta, o entendimento tende a favorecer o trabalhador”, alerta.

4- Prevenção integrada à gestão

A atuação isolada do jurídico é insuficiente. O ideal é integrar áreas como RH, contabilidade e liderança. “Quando essas frentes conversam, a decisão deixa de ser reativa e passa a ser estratégica”, avalia.

5- Escolha de assessoria especializada

Contratar uma consultoria empresarial com foco preventivo reduz riscos de forma consistente, sobretudo em pequenas e médias empresas. “Não é apenas sobre defender processos, mas sobre orientar o empresário a decidir melhor antes que o problema exista”, resume.

O avanço da litigiosidade trabalhista tem levado empresas a repensarem seus modelos de gestão. A profissionalização da prevenção surge como resposta a um ambiente jurídico mais rigoroso e menos tolerante a improvisos. “A Justiça do Trabalho não é um evento raro, é uma variável permanente do negócio. Ignorá-la custa caro”, conclui.

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