Como a medicina espacial ajuda a entender perda muscular e internações longas
*Por João Modesto Filho
Em abril, nesta coluna, abordamos como a permanência na Lua pode funcionar como um verdadeiro laboratório de estudo para envelhecimento acelerado. Nesse sentido, observou-se que uma menor gravidade, a perda de massa óssea e muscular, as alterações cardiovasculares, o estresse e as mudanças metabólicas mostram como o espaço pode sinalizar mecanismos também presentes em doenças da Terra.
Agora, uma experiência francesa realizada em Toulouse nos fornece mais dados sobre esse tema. Um estudo denominado BRAHMS, conduzido pelo Instituto de Medicina e Fisiologia Espaciais, avaliou dez homens saudáveis submetidos durante dez dias a repouso absoluto, em posição inclinada, simulando algumas alterações da microgravidade. O aspecto mais inusitado foi relacionado à alimentação, pois cada integrante da pesquisa se alimentava com apenas 250 calorias por dia, cerca de dez vezes menos do que as necessidades energéticas usuais de um homem adulto.
Em termos de pesquisa, disseram os autores que o objetivo não era simplesmente emagrecer, mas compreender como o organismo reage à combinação de imobilização e restrição energética extrema, uma situação que poderá ocorrer numa futura viagem a Marte diante de falhas técnicas, dificuldades na produção de alimentos ou redução prolongada do suprimento alimentar.
Já é fato conhecido que quando falta energia, o organismo aumenta a utilização das reservas de gordura e dos corpos cetônicos e reduz o gasto energético, o que é uma estratégia de sobrevivência. Entretanto, existe um limite já que, quando a disponibilidade energética se torna insuficiente, proteínas corporais podem ser utilizadas para produzir energia, levando à perda de massa muscular. Esse aspecto interessa diretamente à endocrinologia, pois o músculo é essencial não apenas para movimento e força, mas também para o metabolismo da glicose. Dessa forma, sua redução pode contribuir para alterações na sensibilidade à insulina e para a perda da capacidade funcional.
Por outro lado, essa experiência francesa demonstra que peso corporal, massa muscular e função muscular não são sinônimos. Assim, uma pessoa pode perder peso e uma quantidade importante de massa magra, ficando então claro que apenas avaliar o peso perdido é insuficiente. Já se sabe que durante a restrição energética ocorrem profundas alterações hormonais e metabólicas envolvendo insulina, glucagon, cortisol, leptina, hormônio do crescimento e hormônios tireoidianos. Nesses termos, o organismo entra em um verdadeiro “modo econômico”, tentando reduzir o gasto energético e preservar estruturas essenciais.
Por esses aspectos, entende-se que a pesquisa espacial apresenta uma importante aplicação terrestre, pois a combinação de imobilização e baixa ingestão alimentar ocorre com frequência em pacientes hospitalizados, idosos frágeis e pessoas submetidas a longos períodos de internação, particularmente na terapia intensiva.
Nesses termos, o estudo BRAHMS poderá ajudar a compreender como interromper esse processo de perda, inclusive por meio de exercícios e estratégias nutricionais capazes de preservar a função muscular. Lembramos que 250 calorias por dia não representa uma recomendação alimentar, e que estamos diante de uma experiência científica rigorosamente controlada, realizada em indivíduos saudáveis e sob acompanhamento médico especializado.
A grande lição desse estudo é que o organismo humano possui extraordinária capacidade de adaptação, mas essa adaptação tem limites. Para chegar a Marte, não bastará transportar seres humanos, mas será necessário preservar músculos, ossos, coração, metabolismo e cérebro durante uma viagem extremamente longa.
Por fim, ao tentar descobrir como sobreviveremos no espaço sideral, a chamada medicina espacial pode também nos ensinar a enfrentar problemas muito mais próximos como sarcopenia, envelhecimento, desnutrição, imobilização hospitalar e doenças metabólicas. Embora Marte esteja muito distante, algumas das respostas para chegar até lá poderão ajudar a humanidade a viver melhor aqui na Terra.
*Médico endocrinologista – CRM PB 973 / RQE 1026
