sábado, 14 de março de 2026
Dublê de rico
12/03/2026

   Definitivamente esse foi o verão dos dublês de ricos. Tão marcante assim só o verão da lata no Rio de Janeiro (1987) quando o navio Solano Star jogou fora milhares de latas com maconha e elas boiaram até as areias das praias lotadas.

   O verão foi embora, porém apresentou-se como o mais criativo dos últimos muitos verões. E aconteceu aqui na Paraíba. Com certeza sociólogos escreverão teses sobre o fato e economistas dirão do impacto dessa massa de dublês de ricos na economia local.

   Funciona assim; juntam-se uns 20, 30 pobres premium e alugam uma casa para passarem o verão. Compram também um jet-ski e uma lancha. Em cotas, bem entendido. Essa a grande sacada, as cotas. O primeiro a usar o jet-ski por um dia só vai ter direito a usar novamente um mês depois. Com a lancha há um detalhe imprescindível. Cada cotista ganha um adesivo diferente e cola no casco da embarcação quando for seu dia de usa-la, porque nas fotos que com certeza postarão na internet, ninguém vai poder identificar a mesma embarcação navegando com tanta gente diferente, né?

   Os dublês de ricos têm noção de espaço e a casa alugada será ocupada por três dia pelas famílias de cada um dos pobres premium. Não poderia ser de outro jeito porque eles mandam vir lá das brenhas toda a parentada para exibirem sua “riqueza”.

   Porém antes do querido leitor pensar que há qualquer ranço com os desvalidos de grandes fortunas, é necessário registrar que o sistema de cotas está chegando à dita alta sociedade.

   Uma amiga querida me disse que está em um grupo que compra bolsas caríssimas, dessas de 100 mil reais. Todo mês ela paga uma cota de 2 mil reais: “- Marquinho, não é só pela economia. Ocorre que as grandes grifes de bolsas, como a Birkin, não vendem para qualquer um. É necessário que antes a cliente compre uma serie de outros produtos para se cacifar na fila de espera. Fica mais fácil no nosso grupo porque já existem clientes antigas da fabricante Hermès e resolvem tudo. O mais interessante é que em nosso grupo já está havendo a cota da cota. Funciona assim; eu divido minha cota com uma amiga de Recife. Numa semana eu uso a bolsa, na outra semana quem usa é ela”.

   Fui contar isso na padaria e o amigo gargalhou: “- Danou-se, nesses dias vão vender cotas de garotas do job”.

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Marcos Pires
Marcos Pires

Marcos Pires é advogado, escritor e carnavalesco.