
Arte é aquilo que empolga quem faz e tem a capacidade de emocionar os que entram em contato com ela, e pensando nisso me lembrei de uma história que o escritor Jorge Amado conta em sua biografia.
Conta ele, que nos anos de 1940, o Partido Comunista havia adquirido grande prestígio junto aos intelectuais, mas lhe faltava uma coisa: a ligação com a classe operária, essencial para um projeto de poder.
A direção do partido orientou os intelectuais a começar organizar reuniões com os operários e suas lideranças. A primeira reunião foi em Santos, na casa do pintor Di Cavalcanti. Numa sexta-feira à noite, começa a reunião, e a casa de Di era coberta de obras de arte pelas paredes.
Na hora de um intervalo para um lanche, um operário sai pela sala a observar os quadros e diante da famosa obra de uma artista brasileira, começa chorar. Um dos intelectuais chega e pergunta ao homem se ele entende de arte, e escuta uma resposta genial:
— Não entendo de arte; eu só achei bonito.
Vou citar três exemplos de despojamento e amor à arte. Quando escreveu A Pedra do Reino, o escritor Ariano Suassuna ganhou um prémio literário e convidou seu primo Manelito Dantas Vilar para investir o dinheiro ganho na compra de cabras nativas, e os dois ganharam as feiras das cidades do Sertão à procura dos animais. Esse gesto se transformou no que é hoje a Fazenda Carnaúba, em Taperoá.
Apaixonado por cinema desde os tempos em que morava em Aracataca, na Colômbia, Gabriel García Márquez ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e doou tudo para a Escola de Cinema e Televisão, que havia fundado em San Antônio de los Baños, em Cuba.
E acabou arranjando uma enorme encrenca com sua mulher, Mercedes, que pensava em reformar a casa da família em Cartagena das Índias.
Já o escritor Waldemar José Solha era funcionário do Banco do Brasil e, apaixonado por cinema, resolveu investir todo o dinheiro que tinha na produção do filme O Salário da Morte, e assim o fez.
Os planos de sua mulher, Ivone, era comprar uma casa em João Pessoa, mas a arte tem esse poder de inebriar as pessoas com uma força tão intensa que elas se tornam despojadas, perdem o amor pelo vil metal.
E só por isso, vale o que cada um fez.
