A exibição emocionou Luciano Hang e os colaboradores presentes na comemoração de 40 anos da empresa, quando o material foi apresentado publicamente pela primeira vez.
Eu estava em casa, fazendo aquele zapping maroto pelo YouTube, antes de viajar , quando cai na minha frente o tal documentário da Havan. Dou play achando que é mais um vídeo de “família empresa feliz”, e de repente estou presa numa novela inteira sobre o Veio da Havan, da infância em Brusque até virar um dos rostos mais falados do varejo brasileiro.
O doc começa cavando a infância dele, a fase em que Luciano penava na escola por causa da dislexia e só aprendeu a ler aos 12 anos, como se a alfabetização fosse uma prova de resistência de reality educacional. Só que, enquanto se enrolava com as letras, já fazia sua primeira microempresa no recreio, vendendo bolacha com o amigo que hoje é diretor da Havan. É o tipo de detalhe que transforma “história de superação” em “case de empreendedor precoce”, com cara de pitch de investidor sentimental.
Depois, o filme joga a gente dentro da fábrica, mostra o menino trabalhando na expedição, virando vendedor, entendendo na prática como funciona o giro de mercadoria e a dança de preços. Ali nasce o insight que separa coadjuvante de protagonista: ele percebe que não basta carregar caixa, tem que aprender a mandar na prateleira. Quando surge a tecelagem, primeiro negócio próprio, é praticamente o piloto da série “como testar um império em versão reduzida antes de abrir a megaloja”.
A fundação da Havan nos anos 80 entra em cena como aquele momento clássico de temporada de origem: pequeno negócio com sócio, loja modesta, e, de repente, uma marca que cresce, ganha fachada espalhafatosa, estátua, luz, barulho, e vira ponto turístico de cidade média. O doc atravessa as décadas mostrando a expansão da rede como quem mostra mapa de poder: cada nova loja é um território conquistado, cada placa verde é mais uma bandeira fincada no tabuleiro do varejo.
Na comemoração de 40 anos, o vídeo aparece pela primeira vez para os colaboradores e o Veio da Havan surge emocionado, falando que nenhuma dificuldade interrompeu o sonho de construir, com aquela turma, uma grande empresa. Eu, do sofá, vejo menos discurso de festa e mais script de branding: é o tipo de declaração que cola na cabeça de funcionário, cliente e possível investidor, embalando a imagem de líder resiliente num mercado em que gigante quebra da noite pro dia.
Quando ele fala que quer inspirar outras pessoas e que a Havan nasceu de trabalho, parceria e vontade de encantar, o documentário escorrega deliciosamente para a zona da autoajuda corporativa, mas com objetivo claro: reforçar que a marca não é só loja cheia de sacola, é narrativa de superação pronta para ser usada em discurso de expansão, parceria estratégica ou até sonho de bolsa, se um dia resolverem. É quase um currículo cinematográfico para o próprio dono e para a empresa.
Eu desligo o vídeo com a sensação de que não vi apenas um documentário, vi um posicionamento. Em tempos em que varejista grande vive crise, queda de margem e medo de virar caso de estudo em aula de falência, transformar sua trajetória em saga de poder é um investimento tão importante quanto abrir nova loja. No reality show do capitalismo, quem domina a história primeiro costuma dominar também o bolso de quem está assistindo.