- Por Marcondes Brito
Até pouco tempo atrás, o nome de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, era desconhecido da imensa maioria do povo brasileiro. Depois, passou a frequentar o noticiário em um escândalo com repercussões nos três poderes. Em março de 2026, vieram a público mensagens que, segundo a Polícia Federal, tratavam de um plano para agredir o jornalista Lauro Jardim, de O Globo.
Acompanhei aquele noticiário com uma lembrança incômoda. Meses antes, alguém me oferecera dinheiro para retirar do ar uma coluna sobre o banqueiro. Suspeitei que a abordagem viesse de alguém ligado a ele, mas não tinha como comprovar. O que posso afirmar é o que aconteceu comigo.
Em 17 de outubro de 2025, publiquei na coluna Futebol Etc, que assino diariamente no Jornal de Brasília – também reproduzida no portal O Norte Online – um comentário sobre a investigação da origem do dinheiro investido por Vorcaro no Atlético Mineiro. Poucas horas depois, chegou a inusitada proposta.
A apuração de Rodrigo Capelo, publicada no Estadão, relatava uma investigação do Ministério Público de São Paulo sobre cerca de R$ 300 milhões destinados à participação do banqueiro na estrutura societária do clube. O dinheiro teria percorrido uma cadeia de fundos sob suspeita de ligação com lavagem de dinheiro do PCC.
Era assunto para uma coluna de futebol. A origem do dinheiro que entra num clube interessa tanto quanto o jogador contratado com ele. Registrei também a posição do Atlético, que negava irregularidades.
O interlocutor não apontou erro na coluna. Não apresentou documento, não pediu espaço para uma resposta. Queria que o texto desaparecesse. Em troca, haveria dinheiro.
Respondi que não tinha interesse. Acrescentei que, se houvesse algum motivo para aquele pedido tão insistente, ele poderia explicar. Dependendo da explicação, o assunto poderia até render outra pauta.
A conversa terminou ali. Não houve nova abordagem nem explicação.
Por algum tempo, preferi guardar o episódio. Sabia com quem havia conversado, mas não de onde partira a iniciativa. Não seria correto preencher essa lacuna com uma acusação. Continuo sem poder afirmar que Vorcaro mandou me procurar.
As revelações sobre Lauro Jardim me fizeram voltar àquela troca de mensagens. Segundo a PF, a agressão ao jornalista seria disfarçada de assalto. A defesa do banqueiro negou intenção de ameaçar e disse que as mensagens haviam sido retiradas de contexto.
Não comparo uma oferta de dinheiro a uma ameaça de violência. Nem tenho elementos para ligar os dois episódios. Mas a notícia me trouxe de volta o desconforto daquela proposta, feita com uma naturalidade que ainda me impressiona.
Quem trabalha há tantos anos numa redação se acostuma a reclamações. Há leitores que apontam erros, personagens que contestam informações, pessoas que se sentem injustiçadas. É preciso saber ouvir. Corrigir, quando necessário, também faz parte do trabalho.
Naquela conversa, porém, não se discutia o que estava escrito. Discutia-se quanto poderia custar tirá-lo do ar.
Não conto isso para pedir medalha. Dei apenas a resposta que me pareceu óbvia e segui trabalhando.
A coluna sobre Vorcaro permaneceu publicada. A proposta para apagá-la acabou rendendo este texto.
- Diário de um Repórter – Histórias que a notícia não conta (1)
