Levantamentos internacionais mostram que pessoas já recorrem a chatbots para apoio emocional e companhia. O fenômeno tem levantado discussões sobre intimidade, expectativas afetivas e os limites entre tecnologia e conexão humana.
Dados publicados pelo Pew Research Center neste ano mostram que 20% dos adultos americanos com menos de 30 anos já recorreram a chatbots para apoio emocional ou aconselhamento. Entre esse mesmo grupo, 7% dizem utilizar a tecnologia especificamente como companhia. Para parte dessas pessoas, a relação com a inteligência artificial vai além do suporte e ganha contornos afetivos e até românticos, movimento que ganhou nome: digissexualidade.
Entenda a digissexualidade: pessoas que sentem atração e mantêm relações com inteligência artificial
A nova tendência envolve atração e relacionamentos afetivos mediados por inteligência artificial, provocando debates sobre tecnologia, afeto e saúde emocional. A influencer Suellen Carey viralizou ao contar nas redes sociais que viveu uma relação afetiva de três meses com o ChatGPT. “Foi uma conexão sem corpo, mas com afeto. Ele lembrava do meu nome, das minhas histórias, do meu aniversário. Me ouvia sem tentar me enquadrar, sem me reduzir à minha identidade de gênero”, disse.
Para o psiquiatra João Borzino, essa forma de relação exige uma análise crítica. Borzino explica que a digissexualidade, embora seja uma nova expressão afetiva e sexual mediada por recursos digitais, pode refletir tendências mais profundas da sociedade contemporânea.
“A ilusão da digissexualidade e o preço de substituir o real pelo fabricado é claro: de vez em quando, a humanidade insiste em brincar com a própria essência. Agora, a moda é ‘digissexualidade’, parece sofisticado, parece moderno… mas, no fundo, é mais um sintoma de uma sociedade que terceiriza a própria humanidade para não encarar a dor, a frustração e a vulnerabilidade que fazem parte da vida e, principalmente, do amor”, explica.
O apego aos chatbots em números
Um estudo internacional publicado em agosto de 2026 na revista Technology in Society, com mais de 7 mil participantes de Alemanha, China, África do Sul e Estados Unidos, identificou algum nível de apego emocional a chatbots em mais de 35% dos entrevistados. Para aproximadamente 21%, os chatbots chegaram a aparecer como primeira escolha para compartilhar segredos.
Para Caio Bittencourt, especialista em comportamento afetivo e relacionamentos do MeuPatrocínio, a discussão agora deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver autenticidade.
“Usar inteligência artificial para pensar em uma boa frase ou organizar uma ideia é uma coisa. O problema começa quando você terceiriza sua personalidade. Há alguns anos, ninguém precisava conversar sobre qual era o limite aceitável de intimidade com uma inteligência artificial. Agora precisa, e muito”, destaca.
Tecnologia avança, mas relacionamentos dependem do fator humano
O MeuPatrocínio acompanha mudanças no comportamento afetivo brasileiro e defende que alinhamento de expectativas e transparência estejam presentes desde o início de uma relação.
“Podemos mudar aplicativo, algoritmo, forma de conhecer alguém e até deixar uma inteligência artificial participar da conversa. Mas relacionamento continua sendo relacionamento: humano. Se não existe clareza sobre quem você é, o que procura e o que está disposto a oferecer emocionalmente ao outro, nenhuma tecnologia resolve”, conclui Bittencourt.
