De Zabelê, cidadezinha tostada no tempo da seca, localizada num recanto da Paraíba, apinhada de encantos e talentos, a cantora do Sertão Sandra Belê saiu para conquistar paisagens.
Esperei mais de uma década para assistir ao show desta intérprete de sonhos do Sertão luminoso. Ela canta o lugar onde, ao final do dia, homens recolhem-se ao avarandado de casa para sentir a frescura da tarde, quando o canto dos pássaros se confunde com voz da própria natureza, misturando-se ao badalar de chocalhos das cabras no retorno ao aprisco.
Recordei quando Sônia Germano a ouviu cantar numa noite em Monteiro. Fascinada pela voz suave, nos falou da sua descoberta. Tinha jeito meigo no trato com a gente e a cultura. Os mestres Sivuca e Glorinha Gadelha também se encantaram com ela.
– Encontramos uma preciosidade…”
Mais ou menos foi o que disse Sônia. Apresentou-me Sandra, que naquele tempo assinava com um “Silva”. Mais tarde, porém, incorporou a palavra “Belê”, numa referência a sua terra. Bonita homenagem.
Esperei com justificáveis ausências, até que Sônia, uma amiga e eu fomos ao show de Sandra, que tem sugestivo título – Voz e Sanfona -, no qual faz uma releitura do Nordeste. Foi a primeira vez que a vi cantar num palco, mesmo tendo assistido a apresentações noutras oportunidades e em programas de televisão. Soberaníssima voz.
Comoveu-me. Quase me levou às lágrimas quando interpretou “Lua Bonita”, de Zé do Norte. Encheu-me de lembranças. Com “Feira de Mangai”, de Sivuca, passeei por Itabaiana, percorri Serraria e parei em Arara, para acomodar minha saudade.
A admiração por ela vem do tempo quando ajuntou pessoas em torno de um projeto que unia caboclos da roça que se dedicavam ao Reisado. Estavam um tanto esquecidos. Buscou os remanescentes dos negros que ali chegaram ao alvorecer do século dezenove, para agrupá-los num projeto de resgate cultural, inclusive, envolvendo jovens e crianças.
Sivuca, Glorinha e Oliveiras de Panela assistiram uma apresentação do Reisado. Voltaram de Zabelê encantados com o que viram. Tudo isso presenciei e também me emocionei.
Se o sanfoneiro conterrâneo do poeta Damião Cavalcanti, de aguçada sensibilidade percebeu nela uma promessa de renovação da música nordestina, a genuína voz feminina Sertão caboclo, Luiz Gonzaga foi inspiração para lapidar sua arte. A estes se juntou Zé Marcolino, com sua vibrante poesia, que incorporou a sua vida de artista.
A simplicidade é tudo na arte. Sandra cantou naquela noite com a alma, esbanjou candura. Sua voz diáfana trouxe até nós a melodia da terra. Como sempre, emocionou e encantou.