A notícia que veio dos Estados Unidos nos últimos dias deveria ser lida com atenção por quem ainda insiste em tratar o futebol feminino como produto menor. Na estreia em casa do Denver Summit FC, novo time da NWSL, mais de 63 mil torcedores foram ao estádio. Não era final, não era clássico, não era jogo decisivo. Era apenas o primeiro jogo do time diante da sua torcida.
E justamente por isso o dado é tão importante.
A cobertura local, que eu li nos jornais, já que não fui ao jogo em Denver, não tratou o número como mera curiosidade. O que percebi foi que a cidade respondeu ao projeto. Antes mesmo de existir uma história esportiva, uma rivalidade ou uma campanha que empolgasse, houve público. Isso mostra que muita gente não foi ao estádio por resultado. Foi porque o evento foi apresentado como algo grande, relevante e digno de atenção.
É claro que precisamos ter em mente as diferenças culturais entre Brasil e Estados Unidos. Lá, o futebol feminino ocupa um espaço histórico e de mercado muitas vezes até superior ao masculino. Ainda assim, o ponto central permanece: tratava-se de um projeto de cidade, pensado também como entretenimento, e por isso já se esperava um bom público.
Esse talvez seja o principal ensinamento, deste primeiro jogo da equipe. O clube não tratou a estreia como um teste tímido para ver se haveria interesse. Tratou, já vinha trabalhando como espetáculo. Usou estádio grande, comunicação forte e colocou o futebol feminino no lugar que tantas vezes ainda se nega a ele: o de atração principal.
O que aconteceu em Denver ajuda a desmontar um discurso que por aqui ainda aparece com frequência. O problema não é a falta de público, que existe, sim.
O problema, muitas vezes, é a falta de confiança no próprio produto. Quando o futebol feminino é divulgado como algo importante, quando recebe estrutura, palco e apresentação compatíveis, a resposta vem.
Agora, claro, fica a expectativa: como esse público vai se comportar ao longo da temporada? A estreia mostra o potencial. A continuidade é que vai consolidar, ou não, esse sucesso.
Denver prova exatamente isso: público não é problema. O problema é quando ainda se oferece ao futebol feminino um espaço pequeno, como se ele tivesse que pedir licença para existir