“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”
Carmém Lúcia
Após uma notícia na TV, alguns caminhantes — nômades da notícia — pararam no abastecimento de água de coco.
Um deles, aparentemente mais vivido nas artes jurídicas, foi direto:
— Pode ter sido a gravidade histórica ou o eletromagnetismo do poder que trouxeram o serviço Judiciário a este deplorável momento. Compelido por sua cúpula — e à revelia de sua base cotidiana — vive hoje uma espécie de alienação institucional. O custo será alto.
Outro, com a marca do expediente diário no rosto, respondeu:
— Esses caras deveriam realizar audiências de casos reais sempre que a abstração da teoria ou a convivência palaciana os arrancar do mundo. Nós, que suportamos a realidade, sabemos o custo de seus experimentos. O pior é defender-se institucionalmente sem ter dado causa — e ainda sustentar o peso da engrenagem. Explicar o mundo é fácil; difícil é julgar processos reais de pessoas reais em conflitos reais.
Um velho advogado bissexto, desses para quem o Direito é filho legítimo da liberdade — e não dos honorários — foi enfático:
— No Brasil, a norma raramente é feita para o povo, como o Direito já não trata propriamente das partes — das quais, paradoxalmente, vive. O Direito tornou-se do sistema, pelo sistema e para o sistema. Não há interesse na solução; há interesse na manutenção do conflito. O conflito alimenta a máquina por puro instinto de burocracia. Um registro digital, estatisticamente mensurável, vale mais do que a satisfação — ou a própria angústia — do jurisdicionado.
Fez uma pausa, como quem mede o silêncio.
— A possibilidade de adequação concreta de um magistrado é ínfima diante da hiperinflação legislativa que desvaloriza a própria norma — e a jurisdição. Multiplicam-se leis como moeda fraca. O juiz torna-se operador de um estoque normativo inflacionado, e não intérprete prudente do caso. É a diferença entre um corpo rígido e outro em que cada unidade possui capacidade real de manobra. Jurisdicionar é como jogar um lençol sobre uma pedreira — e esperar que a acomodação nos espaços.
Olhou para o mar, onde as ondas insistiam no mesmo gesto.
— Sempre houve, no Estado brasileiro, um bacharelismo de cúpula. Mas hoje ele se sofisticou. Transformou-se em técnica. Em sistema. Em autoproteção. É uma demofobiainstitucional: medo do povo concreto, imprevisível, real. Medo da vida que não cabe na tese.
O grupo seguiu caminhando.
E era audível, por cada grão de areia ainda beijado pela espuma da praia:
— É tão absurdo que se torna crível. E é real — justamente porque parece incrível.