segunda-feira, 16 de março de 2026
De Habeas Defunctum
16/03/2026

(Sobre o “ter o defunto”)

A morte é certa, às vezes trágica; o velório, não raro, é uma comédia — como a própria vida.

Minha amiga grega, do Óraculo de Delfos (Cida Lobo), exigiu que eu fizesse uma pequena curadoria dos meus contos para publicação. Entre eles estaria “Habeas Defunctorium”.

Meu estimado professor Trindade, natural de Piancó, perguntou-me sobre os personagens do conto e sobre a minha relação com a cidade.

Ao mesmo tempo, Bento Júnior avisou-me — para minha gratidão — que estava terminando um cordel baseado no enredo.

Alguns leitores comentam o estilo, oscilando entre Lima Barreto e Machado de Assis. Outros conhecem pedaços da narrativa, ouvidos em piadas e conversas esparsas. A maioria, porém, chama simplesmente de causo — e ri.

Não vejo problema nisso.

À amiga grega respondi que o acaso é a minha causa ao caos. Quando me organizo demais, eu paro — e o caminho vai embora sem mim. Então volto e recomeço por outras veredas, numa condenação à samsara.

A Bento devo apenas agradecimentos. É de uma elegância quase sublime. Vivemos trocando figurinhas. Espero ainda uma oportunidade para nos sentarmos e pensarmos juntos na montagem de uma das minhas peças de teatro: O Pino.

Já ao professor resolvi contar os detalhes.

Na verdade, o conto nasceu da soma de muitas histórias que ouvi ao longo da vida. O impulso imediato, porém, veio de uma conversa de padaria sobre uma nota fiscal de defunto.

Algumas ideias eu já havia anotado; outras ainda ardiam na memória.

Sou de Jatobá, mas passei parte da adolescência convivendo com muitos amigos de Piancó, em repúblicas estudantis e nas escolas por onde andei. Mais tarde, reencontrei muitos deles nos trabalhos que desempenhei profissionalmente.

Ouvi inúmeras histórias — e sempre anotei algumas para uso posterior.

Por causa do professor, resolvi tirar o conto do hermetismo da inspiração e explicar como ele foi construído.

Essas narrativas costumam ser chamadas de causos. Assim como “cantador”, “repentista” ou “poesia popular”, a palavra às vezes serve para afastar o texto de sabor popular do enquadramento das escolas e dos currais literários — com os seus coronéis de milícias.

Não sei se isso é realmente desvantajoso. A crítica raramente possui a sensibilidade do público — e hoje parece restrita, quando muito, ao ambiente acadêmico e aos editais oficiais.

Portanto: é um conto. Mas podem chamá-lo de causo.

O título brinca com o latim jurídico do habeas corpus. No caso da história, os personagens estão presos e saem apenas para um enterro. Em vez de “tenha o corpo”, temos então “tenha o defunto”, numa brincadeira com o latim.

Há algo de verossímil na prisão dos rapazes. Conta-se à boca miúda que um delegado de Piancó realmente teria prendido alguns jovens conhecidos da bagunça — e já advertidos mais de uma vez.

Do bom delegado guardo comigo a lembrança do Cabo Cruxe, de Carrapateira.

A ideia de um enterro regado a bebida vem de tradições antigas. Beber o defunto faz parte, em muitos lugares do sertão, das cerimônias da incelência.

A “nota fiscal” do defunto aparece como contraponto burocrático ao atestado de óbito — ambos, hoje, igualmente estatais.

O agiota, por sua vez, é figura recorrente na vida sertaneja. Necessitados e pródigos o procuram — e quase sempre saem com igual raiva dele. Não existe o bom agiota.

Orlando Tejo, o paraibano mais sublime que existiu, tem uma das melhores narrativas sobre o tema, num poema (seria repente?) sobre um certo Canindé que fazia ponto na Câmara dos Deputados — para salvar situações dele e de carentes (link aqui: https://mundocordel.blogspot.com/2011/01/causo-de-luiz-berto-sobre-orlando-tejo.html).

Mas o agiota mais famoso que o Vale exportou para João Pessoa foi Cleanto Pinto. Diz-se que o pai o formou em Direito para demonstrar o nível da advocacia. Ele próprio gostava de afirmar que era credor de gente importante com quem convivia — ainda que apenas circunstancialmente.

Alguns nomes do conto vêm de figuras reais de Piancó.

Pedro Freire, por exemplo, é um personagem em si. Morei muitos anos em seu hotel e ouvi dele histórias extraordinárias — na maioria, ele como protagonista.

“Bené” era um nome usado numa expressão popular sobre esperteza impiedosa:

“É um Bené!”

Dino, dono de sorveteria da cidade, era também pai de um colega de república.

O coveiro Ainstain homenageia um amigo cujo nome derivava de um curioso aportuguesamento de nomes históricos. No caso desse amigo era Anzerral. Trouxe Einstein para o Vale — e fiz dele coveiro. Óbvio: com o nome em piancoês.

A ideia de salgar um defunto vem de uma velha piada sertaneja sobre um político que, ao negar ajuda para um enterro, ofereceu apenas dinheiro suficiente para salgar a defunta. A família assim o fez.

O baralho, por fim, é Piancó. Não é possível ouvir três histórias de lá sem que, pelo menos, uma tenha um baralho.

Dr. Judivan dizia que um assessor seu, meu amigo Aristides, jamais dera bom dia a ninguém, pois só acordava à tarde, depois de madrugar nas maravilhas do pano verde.

Pronto.

Assim nasceu a história.

Escolhi um estilo mais próximo de Machado de Assis do que de Lima Barreto, tentando não repetir demais certas inclinações borgianas — naquela velha angústia da influência de que fala Umberto Eco.

E, para minha alegria, meu amigo Bento transformou o conto em um belo cordel

(link aqui: https://www.recantodasletras.com.br/cordel/8581284).

A história, que começou numa conversa de padaria, acabou ganhando outras vozes.

Talvez seja esse o destino natural de certos contos: nascer como lembrança, viver como causo e, de repente, descobrir-se literatura.

A explicação vai dedicada à minha irmã Marah, em qualquer universo que esteja; ao meu primo Osmar (para a gente não morrer de saudade); a Bibi (que comungou os sonhos com ela); à Norma de Tia Sinhá (porque é pura); à Netinha de Zé Pereira (porque a vida é assim mesmo); e a Pretin (pela saudade sem limites).

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