quinta-feira, 9 de abril de 2026
Clamor e esperança
09/04/2026

Mais de duas décadas depois de tornado público esse documento, parece atual e oportuno o momento para uma releitura dessa Carta, a partir dos pontos assentados, para que, tendo a Palavra de Deus como horizonte, possamos atualizá-la com novas e importantes discussões. A pergunta dos cinco bispos está atualizada: “Que direito têm vocês de oprimir o meu povo e de esmagar a face dos pobres?” (Is 3,14-15).
Os bispos paraibanos recordavam as estruturas que, há séculos, oprimem a sociedade e, no caso do Nordeste, ainda mais, por se tratar de uma região agravada com as secas periódicas que se tornaram uma marca da tragédia humana. A elas se juntam a violência em campos diversos, a falta de estrutura hídrica e de saneamento, e apoio à agricultura em maior escala, além de escola e acesso ao saber.
Desde o final do século XIX, as artes e a literatura gritavam, sendo aliadas na denúncia do quadro social que humilha as pessoas. Temos um povo que “morre de fome na terra de Canaã”, no dizer de José Américo de Almeida. Em meados do século passado, uma luz surgiu com a criação da Sudene e o aparecimento de programas sociais, mesmo a contragosto de vozes agourentas. Os bispos da Paraíba tinham a consciência de que “o abandono dos pobres é tanto mais grave quanto se consolida o reconhecimento de que, sem a participação deles, não se fará o desenvolvimento”.
Preocupados com as causas sociais, para denunciar e opinar, eles nunca perderam de vista a saga que marcava a tragédia humana. Uma tragédia humana gerada pelo analfabetismo que os religiosos apontavam como uma das causas centrais para a vida de penúria das famílias, sobretudo aquelas residentes no campo e nas periferias das cidades.
Com a visão voltada para os documentos da Igreja, Dom José Maria Pires e Dom Hélder Câmara, assim como Dom Antônio Fragoso e outros bispos e padres, tinham a convicção de que era preciso sair do “centro para a margem”, a fim de se atingir a plenitude da vida em que não houvesse fome, opressão nem a violência de dimensões insuportáveis.
Diante do quadro em que se encontravam o Nordeste e a Paraíba, os bispos escreveram no ano de 2000: “Vemos que, neste momento, a Igreja não pode ficar conformada, apenas escutando lamentações”. E acrescentavam: “Cabe-lhe uma missão profética, de ser ‘voz dos que não têm voz’, de pronunciar sua indignação ética diante do sacrifício de milhares de vidas humanas”.
Apontavam nove proposições como compromisso da Igreja e da Sociedade para o debate e o aperfeiçoamento institucional democrático. Todos os pontos indicados poderiam hoje ser analisados à luz da realidade atual, para saber até que ponto contribuíram para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Como no ano de 2000 – “a situação do Nordeste, escandaliza as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade” –, a situação agora não é diferente.
Se no início deste século, quando a Carta dos Bispos foi escrita, a situação do Nordeste e da Paraíba era preocupante, ela persiste, apesar de existirem pequenas ilhas de bonança. As crises talvez sejam mais gritantes, com “quadro clamoroso de desigualdades e injustiças”. Acrescentem-se, a tudo o que se verificava àquela época, as inquietações dos tempos atuais, principalmente a violência na sua abrangência incontrolável.
Na época de sua publicação, a Carta dos Bispos da Paraíba constitui um documento que teve grande repercussão. Será oportuna uma discussão, por parte da Igreja, das conquistas e dos avanços alcançados até agora, de modo a apontar caminhos, à luz dos Evangelhos e dos documentos emanados da Igreja, como propostas para uma vida melhor de todos.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).