sábado, 21 de março de 2026
Civilidade em campo, o futebol que quase esquecemos
20/03/2026

O que aconteceu depois do jogo entre Real Madrid e Manchester City é algo quase impensável no futebol brasileiro

Futebol é das coisas menos importantes, a mais importante do mundo. A frase carrega uma ironia que só funciona porque é profundamente verdadeira. O futebol mobiliza paixões, constrói identidades, move economias e, ao mesmo tempo, continua sendo apenas um jogo.

E é justamente por ser apenas um jogo que ele exige algo cada vez mais raro: civilidade.

O que se viu no confronto entre Real Madrid e Manchester City, no meio da semana, foi um retrato quase didático disso. O time espanhol eliminou o adversário dentro da casa dele. Um cenário perfeito para tensão, ressentimento e desculpas. Mas o que veio depois do apito final foi o oposto.

Pep Guardiola, um dos maiores vencedores do futebol mundial, foi pessoalmente cumprimentar Vinícius Júnior. Não houve teatro, não houve ironia. Houve reconhecimento. Houve respeito.

E não foi um gesto isolado. O goleiro do City, Gianluigi Donnarumma, resumiu em palavras o que deveria ser regra, mas virou exceção: “Vinicius Jr. é um campeão. Ele deveria ser amado por todos.”

Não se trata de Vinícius. Trata-se do que o gesto representa.

No futebol, assim como na vida, existe vitória e derrota. Não há campeonato sem eliminação, não há título sem frustração alheia. E, ainda assim, seguimos assistindo – especialmente no Brasil – a um roteiro previsível e pobre: quem perde raramente perde de fato. Perde, mas culpa o árbitro. Perde, mas culpa o gramado. Perde, mas nunca admite que o adversário foi melhor.

É uma recusa infantil da realidade.

E aqui está o ponto central: não se trata apenas de “saber perder”. Trata-se de algo mais básico – entender o jogo. Entender que o futebol não é um tribunal de justiça, não é uma guerra, não é uma disputa moral. É um jogo. Com regras, com acertos, com erros e, inevitavelmente, com vencedores e derrotados.

Quando essa compreensão se perde, o que sobra é o espetáculo degradado que, por vezes, ultrapassa a rivalidade e encosta na barbárie.

Por isso, o que aconteceu após a vitória do Real Madrid por 2 a 1 sobre o Manchester City não é um detalhe. É um lembrete. Um raro momento em que o futebol se comporta como deveria: intenso durante o jogo, respeitoso depois dele.

Talvez seja utopia esperar que esse comportamento vire regra. Mas, enquanto ainda existirem esses gestos, ainda há esperança de que o futebol continue sendo – na medida certa – a coisa mais importante entre as menos importantes.

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