terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Celso Mariz
24/02/2026

 Numa tarde, vendo o pôr do sol que se derramava sobre a balaustrada das Trincheiras, chegamos à casa de Celso Mariz, para uma entrevista destinada ao Jornal A União, onde eu dava os primeiros passos como repórter.

Domingos Sávio e eu, encontramos Celso no terraço. Repousava numa rede, depois da madorna pós-refeição. Os cabelos da cabeça lembravam um capucho de algodão mocó, movimentava as mãos com dificuldade, mas o olhar sereno nos cativou.

A fala cansada obrigava aproximar o ouvido, às vezes fazíamos concha com a mão para melhor ouvir o que solfejava. Quando informei onde eu tinha nascido, sorriu e lembrou-se de seus trabalhos de pesquisas sobre a origem de Pilões e Serraria e, também, da biografia de Padre Ibiapina, que denominou apóstolo do Nordeste, porque missionário dedicado aos pobres da região. Foi nosso último encontro. Tivemos uma conversa curta, recheada de recordações.

 Antes de atuar na redação de A União, observava à distância quando ele caminhava ao Clube Cabo Branco, com seu uniforme de linho branco, espigado, sabendo-o testemunha de episódios que mudaram a história da Paraíba. 

Homem notável em tudo que fazia, Celso Mariz nasceu a 17 de dezembro de 1885, no sítio Escadinha, no município de Sousa. Passou sua infância em Taperoá, onde foi conselheiro municipal (vereador) ainda na juventude, até fixar residência na capital do Estado, onde se destacou pelos trabalhos intelectuais e cargos públicos. Membro do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, ele foi um dos intelectuais que fundaram a Academia Paraibana de Letras, no ano de 1941.

Os livros que escreveu são referências para pesquisas históricas, desde “Através do Sertão”, de 1910, que retratou com maestria suas andanças pelas regiões inóspitas da Paraíba, “Apanhados Históricos da Paraíba”, de 1922, a “Evolução Econômica da Paraíba”, de 1939 e “Ibiapina, um apóstolo do Nordeste”, de 1942. 

No perfil que traçou dele, o historiador Dorgival Terceiro Neto o descreveu como sendo uma pessoa “modesto, simples, atencioso, que preservava as amizades”.

Escrevia com refinado estilo, e “era um poço de cultura e ao mesmo tempo um arquivo vivo de reminiscências paraibanas”, repetiu Dorgival. Deixou-nos ensinamentos na arte de pesquisar e escrever. Escrevia ao correr da pena, em vernáculo simples e escorreito.

Deixou publicados preciosos dados que forma o melhor da pesquisa sobre a história da Paraíba. Maior do que qualquer homenagem, nos cento e trinta anos de seu nascimento caberia a Academia que fundou e o IHGP ao qual pertenceu levar legado chegasse à juventude estudantil, que pouco sabe a seu respeito e muito menos da história de nossa terra.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).