Retiro Quaresmal
Eu vos deixo a Quaresma
e os prantos que “mereceis”.
Os das memórias felizes,
que guardam — todos vocês.
Descansem nas penitências
para pecar — outra vez.
(De Ampulheta de Estrelas)
Ao modo de Gilberto Freyre, o Brasil pode ser lido por suas arquiteturas sucessivas, cada uma revelando uma forma específica de desigualdade. Casa-grande & Senzala (Bahia e Pernambuco, séculos XVI e XVII) examinou a intimidade do poder, onde o mando habitava o interior da casa e o trabalho permanecia fora dela;Sobrados e Mucambos (Minas e São Paulo, séculos XVIII e XIX) revelou a urbanização hierárquica, a janela alta de onde se observava a rua sem descer a ela; Ordem e Progresso (Rio de Janeiro, séculos XIX e XX) acompanhou a institucionalização da desigualdade, quando o mando ganhou farda, gabinete e carimbo.
Freyre não publicou um quarto volume dessa sequência. Há, contudo, indicações na fortuna crítica freyriana de que ele teria cogitado ampliar sua interpretação arquitetônica do país para além de Ordem e Progresso. Se esse desdobramento tivesse tomado forma, poderia ter enfrentado o Brasil republicano sob uma chave semelhante a “Jazigos e Covas Rasas” — não como título efetivamente lançado, mas como eixo interpretativo: o Brasil das promessas enterradas, a República que anunciou travessia e frequentemente sepultou a ponte.
Se avançarmos um passo além, talvez estejamos hoje diante de um novo capítulo estrutural: Camarotes e Passarelas — o Brasil das promessas encenadas.
No carnaval, o país parece suspender hierarquias. Na verdade, apenas as coreografa. A passarela é o chão iluminado da fantasia; o camarote é o alto discreto do conforto. Há proximidade visual, mas não há travessia social. Todos se enxergam, porém dentro de molduras distintas.
E não é só música. O carnaval expõe o corpo e flexibiliza convenções. A nudez deixa de ser escândalo e torna-se estética pública. Gêneros se afirmam ou se experimentam sem o constrangimento ordinário; identidades emergem;fronteiras morais se afrouxam; a bebida corre solta; e a madrugada dilata o tempo. O que durante o ano se regula, vigia ou silencia, durante alguns dias se revela. Não se trata apenas de festa; trata-se de exposição simbólica. Uma verdade corporal que o cotidiano disciplina e que, por breve período, suspende suas amarras.
Mas até essa nudez é provisória.
A parábola de Lázaro ilumina esse teatro nacional com clareza inquietante. Em vida, o rico e o pedinte conviviam à porta (entre pecados e promessas). Não havia abismo físico; havia indiferença confortável. O pedinte representava a realidade concreta; o rico, a normalidade satisfeita no poder. O abismo surge apenas depois da morte. No além, dá-se a inversão: Lázaro é acolhido; o rico experimenta o tormento. Só então o rico enxerga Lázaro – e, ainda assim, não o reconhece como igual. Pede que ele lhe traga água. Pede que vá advertir seus irmãos. Mesmo no inferno, conserva a lógica hierárquica. Abraão responde que eles, os desavisados do rico, já têm a Lei e os Profetas. Já possuem advertência suficiente. O problema nunca foi falta de luz, mas recusa de conversão.
O carnaval brasileiro apresenta um paralelismo sugestivo. O camarote contempla a avenida; a avenida deslumbra o camarote. Há contato visual, mas não há superação do desnível. O carnaval funciona como um pós-morte simbólico e antecipado – uma inversão provisória, iluminada por holofotes. O pedinte brilha por algumas horas; o rico observa protegido pelo vidro. O abismo, contudo, permanece estrutural.
Quando a bateria silencia, cada qual retorna ao seu lugar. A fantasia volta ao cabide, o brilho ao asfalto comum, as hierarquias ao seu desenho cotidiano. A nudez cede à roupa, o excesso à rotina, a suspensão à disciplina.
E então chegam as cinzas.
A quarta-feira não é apenas calendário litúrgico; é veredito. A purpurina não cobre o abismo – apenas o ilumina por algumas horas. A Quaresma recorda que toda inversão simbólica é transitória e que nenhuma catarse substitui conversão real. O Brasil sabe celebrar como poucos, mas ainda hesita diante da travessia que exige renúncia.
Entre camarotes e passarelas, ensaiamos paraísos provisórios. Mas as cinzas pousam sobre todos – sobre o vidro do alto e sobre o chão da avenida. E nelas está a única igualdade que não admite espetáculo: a de que toda festa termina, toda máscara cai e toda estrutura responde ao tempo.
Descansamos nas penitências, para pecar — outra vez.
