“No te entregues, corazón libre, no te entregues
Y recuerda, corazón, la infancia sin fronteras
El tacto de la vida corazón, carne de primaveras.”
Rafael Amor apud Sosa in Corazon Libre
Um de nós foi apelidado, creio, por Dona Hermance, de Beroaldo.
Eu, que tinha mais dessas características — o tipo franzino —, preferia ser o José ou o João, do 1º Ano, porque eles eram “brasileiros do Nordeste”. E eu queria ser brasileiro do Nordeste.
Com o tempo, descobri-me assim. Mas a atração não era apenas telúrica ou cultural; havia uma necessidade de persona literária. Na verdade, eu queria ser do livro, nem que fosse uma página. Ou talvez quisesse apenas outro mundo — aquele em que só anjos e livros, àquela altura, concediam ingresso, ainda que ilusório.
Era o universo escolar da minha Cartilha Nordeste. Esses personagens estavam lá, nas páginas onde a infância mora até hoje.
Cada série tinha sua deusa professora, como nos anos maternais: no Jardim, Dona Alaide; na Cartilha A, Dona Margarida; na Cartilha B, Dona Raimunda; na 1ª Série, Dona Hermance (eu só fiz as provas finais);na 2ª Série, Dona Nelma; na 3ª Série, Dona Tida e Dona Maria Elza (repeti o ano, porque fui reprovado); na 4ª Série, Dona Rosemare.
Elas se disfarçavam de pessoas, para serem mães da gente, mas eram divinas. Eu vivia nesse céu.
De cada cartilha — ou série — guardava lembranças reunidas com as dos colegas, da escola e dos acontecimentos. Minha escola era a Santa Maria Goretti, ao lado da Igreja Matriz de São José.

Nesse mundo cabiam a quadra esportiva, a praça, o teatro, os campinhos, o Poço Cajueiro, a Barraginha — e até os sítios de caçadas e pescas: aventuras inesquecíveis.
O pouco que faltava de céu era por nós mesmos completado no Coreto e no Pé de Fixo, brincando de Fubá-Licença e, à noite, compartilhando histórias e paixões ao som mavioso do saxofone de Mestre Joaquim Oliveira.
Esse céu, nós sabíamos, era qualquer lugar visto por qualquer um sob a perspectiva de Deus. E Deus era, simplesmente, assumir a condição de ser — livre.
Todo céu deixa marcas. A memória humana é uma tentativa de reencontrar o Éden.
Eu, por exemplo, insisto: o paraíso é apenas um livro prestes a ser lido no Purgatório — aquele “Futuro do Pretérito” inventado pelos monges —, mas que está sendo escrito pelo próprio leitor.
Na biblioteca da escola havia o livro Três Garotos em Férias no Rio Tietê, de Francisco de Barros Júnior. Eu me deliciava com ele sob o olhar atento de Dona Elzita.
Pois bem: Beroaldo não fui eu.
Ainda assim, guardo com tanto carinho minhas cartilhas — são oito — que faço delas minha única exigência testamentária: que me acompanhem no caixão (podem dispensar as flores) no túmulo que dividirei com Oscarzinho. Não são as mesmas, mas estou tentando formar a estante: faltam-me duas, as da 1ª Série. Algumas estão repetidas. Mandei digitalizar todas para compartilhar os arquivos. Uma paixão só é verdadeira se compartilhada — como a fé.
Participo de diversos grupos nas redes sociais dedicados às Cartilhas. Há uns quinze dias, um rapaz me escreveu pedindo os arquivos. Conversei um pouco com ele e mandei os que tinha. Depois, ele me contou que possuía uma da 2ª Série — justamente uma das que me faltavam.
Hoje, ele me mandou o arquivo digitalizado da Cartilha Nordeste, Linguagem, 2ª Série. Nessa série está a história de Beroaldo.
Então eu chorei.
