A busca do Atlético Mineiro por um substituto para Jorge Sampaoli recolocou em cena um debate que atravessa o futebol brasileiro neste início de temporada: afinal, os clubes devem continuar olhando prioritariamente para treinadores estrangeiros ou já é hora de apostar de forma mais consistente na renovação dos técnicos brasileiros? A tentativa frustrada, até aqui, de fechar com o argentino Martín Palermo e o movimento de parte da imprensa de Belo Horizonte em defender um nome nacional, como Renato Gaúcho, ilustram bem esse dilema.
O pano de fundo dessa discussão é mais amplo e vai além do caso do Galo. O futebol brasileiro vive um momento de contradição: ao mesmo tempo em que a Seleção rompeu uma resistência histórica e entregou seu comando a Carlo Ancelotti, os clubes começam a produzir sinais de renovação interna no banco de reservas. É como se o Brasil, de um lado, reconhecesse que precisa buscar referências fora e, de outro, começasse a admitir que a formação de técnicos em casa não está necessariamente condenada ao atraso.
O exemplo mais citado dessa “nova escola” é o de Filipe Luís. Ainda no início da carreira como treinador, ele conseguiu transformar prestígio de ex-jogador em método, organização e leitura moderna de jogo, desmontando o velho argumento de que ídolos não conseguem virar técnicos competitivos. Outro caso emblemático é o do Mirassol, que, sob o comando de Rafael Guanaes, mostrou que é possível competir em alto nível com orçamento curto, ideias claras e um modelo de jogo bem definido.
Esses exemplos não anulam o impacto da presença estrangeira no futebol brasileiro, mas mudam o eixo da discussão. Quase metade dos clubes da Série A iniciou a temporada com técnicos de fora, não por moda, mas por uma busca por organização, metodologia e planejamento que, muitas vezes, os próprios clubes deixaram de cobrar dos treinadores nacionais ao longo dos anos. Ao mesmo tempo, a emergência de nomes brasileiros com propostas mais modernas sugere que o problema nunca foi o passaporte, e sim o ambiente hostil a processos de médio e longo prazo.
É nesse cruzamento de caminhos que o Atlético Mineiro se encontra agora. A escolha entre um estrangeiro como Palermo ou um brasileiro como Renato Gaúcho não é apenas uma decisão de mercado. Ela simboliza que tipo de futebol o clube quer construir: a aposta em mais um nome importado como resposta imediata à pressão por resultado ou a tentativa de se alinhar a um movimento de renovação que começa, timidamente, a aparecer no país.
Entre Ancelotti na Seleção e Filipe Luís nos clubes, o banco de reservas virou um novo campo de disputa no futebol brasileiro. O Atlético apenas caiu no meio desse debate. A forma como o clube vai sair dele pode dizer muito sobre o rumo que os grandes do país pretendem tomar nos próximos anos.