As netas secretárias
07/03/2026

Outro dia passei um longo período da tarde procurando uma caderneta antiga com anotações feitas não sei quando, mas que considerava úteis para a composição de um texto que haviam me pedido. Não sei se era um texto publicitário ou uma nota de recordações literárias. Lembrava que a cadernetinha tinha a capa preta, plastificada, deveria estar bem surrada devido tanto tempo guardada. Nem com essa identificação conseguia avistá-la por entre as pilhas de papéis e livros desarrumados nas prateleiras da biblioteca.
Remexia nos papéis há mais de dois dias. Abria gavetas, e nada de encontrar a preciosidade que buscava. Tirava pastas das estantes. Afastava livros. Mas cadê da caderneta, nada de aparecer.
Sabia que as anotações sobre leituras antigas estavam em uma caderneta preta. Esse material me ajudaria na composição do texto solicitado. Escrever exige guardar documentos, anotações avulsas mesmo que aparentemente não sirvam para nada.
Como tenho duas netas que se autonomearam secretárias, que aceitei com ardente alegria, as vezes nas minhas aflições de avô desligados, como dizem, as vezes recorro a elas. Lembram do salário mensal quando atraso repassar o numerário.
Certa noite, uma delas, retornando da escola, sabendo de minha aflição, logo me aconselhou:

  • Vô, esqueça o que está procurando. Logo a caderneta aparece.
  • Como esquecer, menina, se preciso urgentemente dessas anotações.
    Com o sorriso de menina de dez anos, saltitante ao redor de mim na biblioteca, observando mais do que ajudando a procurar o meu objeto de desejo, voltou a falar:
  • Vô, é assim. As coisas se escondem quando mais precisamos.
  • Como se escondem, menina, se não têm pé!
  • O senhor é que pensa. Objetos têm pés e mãos, sim, senhor! Só que são invisíveis. Sendo invisíveis, nunca avistamos e nem pegamos.
  • Pronto. Não sabia disso.
  • Quando os objetos, que estão escondidos, pensam que não mais precisamos deles, então, resolvem aparecer.
  • Vou acreditar na sua teoria.
  • Coisa infalível.
    Concordei.
    Saímos da biblioteca, esse privilegiado espaço de quatro metros quadrados, com estantes nas paredes apipadas de livros que formam um mundo à parte, onde pastas são guardadas com recortes de jornais velhos e revistas contendo textos e entrevistas de autores de minha predileção.
    Sempre tive a mania de guardar meus textos e recortes de jornais. Coisa que a mulher reclama, mas aceita com paciência. Os netos ficam admirados quando se deparam com alguma reportagem ou fotografia antiga, que guardo com desvelo.
    Desde o tempo de repórter tinha mais de uma caderneta com anotações. Primeiro, como dever de oficio, reservando espaço para os telefones das fontes de notícias. Mais tarde, literato ocasional, anotava acontecimentos culturais que achava interessantes. Uma frase reveladora que poderia usar em alguma oportunidade.
    No dia seguinte ao diálogo com a neta-secretária, retomei a busca pela caderneta. Na primeira caixa de papelão que afastei, inesperadamente, encontrei o objeto que procurava por detrás da fileira de livros. Estava socada por trás de uns livros antigos, pouco consultados. Na ânsia de tê-la às mãos, vasculhava os recantos prováveis de encontrar, não obtinha êxito.
    Estava sem assunto palpável para a crônica, apesar das ideias vagando turbinadas pelos acontecimentos climáticos, quando chegou o pedido para escrever sobre poesia de certo poeta paraibano que nos fez universal.
    Os gestos da neta Pérola em me auxiliar com conselhos, deixou-me emocionado. Muitas vezes é preciso escutar o tino das crianças porque, na infinita inocência, revelam caminhos que os adultos em muitas ocasiões passam à margem.
    Ainda mais porque tudo ocorreu em dia de sábado, que geralmente arrumamos os objetos acumulados na biblioteca.
    Depois desse drama para encontrar uma caderneta com preciosas anotações, tomei mais cuidado em guardar meus instrumentos de trabalho.
    Quando residia no sítio escutava muitas pessoas comentarem que é interessante rezar para as almas quando se deseja encontrar algum objeto que desapareceu, até mesmo animais e pequenas crianças que desapareciam pelo mato.
    Lá no sítio onde nasci, presenciei muitos desses momentos e, depois da reza, quando menos esperava, o objeto procurado ou que tinha desaparecido, surgia diante de nossos olhos.

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).