Levanto a vista na avenida e dou com o meu mundo no chão. Nesta fase de pesadelos, pareceu-me, de relance, outra derrubada geral, agora atingindo o meu teto mais seguro: as mangueiras avoengas da Maximiano Figueiredo e da João Machado.
Mas não é derrubada, é poda. Os parasitas estavam destelhando esse teto verde que protege a cidade e o prefeito mandou urgente retelhá-lo.
Mas vi-me no chão, sim. As copas no asfalto como pedaços de mim mesmo, desabados sob o peso de mangas e sonhos que remontam há três, quatro decênios, quando as mangueiras eram, ao mesmo tempo, o meu caminho do mundo e o de casa.
As ideias exigem cenários. E também as leituras. Já disse que o Engenho Geraldo serviu de cenário para as minhas leituras do conde de Tolstoi. O mundo do conde é grande, imenso, do tamanho da alma russa, e o Engenho Geraldo, no limite dos meus horizontes, não era menor. Digo era, exatamente porque não existe mais, foi-se com o seu dono, com a sua época, com a antiga prosperidade de léguas dos Tavares Cavalcanti, modelos do patriarcado rural. O que resta hoje é menos real e concreto do que a ficção tolstoiana, sempre verde, repleta de animação e vida.
Ao contrário do engenho, as mangueiras parecem ser as únicas garantias de que estou vivo e existo. Meu pulso não me dá essa certeza, muito menos as ideias de solidez de um mundo mais justo, concebidas e cultivadas ao longo da vida.
Sem sair do lugar, o renque de mangueiras frondosas é o único testemunho que continuou a sua marcha, florescendo e renovando-se a cada semestre, deitando a sombra generosa a tudo mais sujeito à paixão e à morte.
À noite, vindo do Liceu ou da revisão do jornal oficial, elas me faziam medo. Abrigavam fantasmas e encobriam malfeitores que, quarenta anos depois, suscitam saudades. Tenho saudade dos medos de antigamente. Medo dos cães ferozes que ficavam por trás dos gradis.
— Tem fósforo?
— Fique onde está — mandei, sacudindo o fósforo e aguentando-me nas pernas, para não correr. A noite fazia medo.
A manhã seguinte era de certeza, certeza que as copas floridas de setembro corroboravam:
“Podemos fazer crescer o Nordeste. Podemos incorporar ao Nordeste precisamente aquilo que lhe falta: terras úmidas, terras com invernos regulares. Isso que o homem, com a técnica mais ou menos primitiva do século XIX, não conseguiu fazer, cabe-nos realizar agora, abrindo estradas adequadas, colonizando, organizando uma economia adaptada ao meio”.
Era a garantia de Celso Furtado, pleno de ciência e de esperanças.
Semelhante ao malfeitor que me pediu o fósforo, tudo se foi: a Sudene, a esperança de Celso, o monolitismo de Stalin e o conteúdo de três dezenas de livros aqui da estante.
Só as mangueiras permanecem.